UNÇÃO, O QUE É?





*Paulo Roberto Souza Mazarem



INTRODUÇÃO

                  Para entendermos um fenômeno ou prática religiosa é necessário recorrermos à história para verificarmos seus registros e acima de tudo não cometer as extravagâncias descritas por ela. É exatamente essa análise que estaremos dedicando neste artigo buscando traçar uma genealogia do termo unção, desde sua gênese mostrando o itinerário percorrido por ela nas mais distintas culturas religiosas, chegando obviamente no contexto hodierno onde o termo sofreu um deturpacionismo sem precedentes banalizando-se e albergando um empréstimo da cultura Africana sincretizando-se na eclesiogênese bem como na sociogênese de nossa nação que desde sua invenção sempre interagiu com culturas religiosas assimétricas ressignificando e rearranjando-se numa bricolagem de Crenças que por seu dinamismo atualiza-se ininterruptamente.

A Unção

                  Estou ciente de que afirmações e pré-noções concebidas a respeito do assunto variam em sua pluralidade. As enciclopédias e os dicionários de teologia trazem desde a acepção etimológica do termo até o seu constructo poético muitas polissemias e interpretações que nem sempre correspondem com a proposta originária e conceitual do termo, longe de qualquer pretensão aqui pedantesca para definir ou esgotar o assunto quero nesse pequeno opúsculo teologizar sobre o assunto e dissertar o tema obedecendo aos critérios que correspondam à escritura (“sola Scriptura”) bem como a crença comum partilhada e compartilhada aos nossos pais pelos pais da fé desde os tempos antigos.
E para isso quero começar com de Russel Normam Champlin, vejamos o significado da terminologia “unção” em sua concepção.
De acordo com R. N. Champlin (p. 524, 2004):


“Unção” no grego, Chrisma aparece na forma substantiva somente três vezes em todo o Novo testamento, sempre na primeira epístola de João: 2:20, 27. O verbo chrio, “ungir”, ocorre por cinco vezes: Lc, 4:18 (citando Isa. 61.1); Atos 4:27; 10:38; 2 Cor 1.21; Heb. 1:9 (citando Sal. 45:8). (Grifos Meus)


              Está claro para Champlin nesse primeiro momento que o termo está associado ao “ato de separação” nesse caso de Deus e não do homem para o exercício de uma vocação.

                     “E a unção que vós recebestes dele fica em vós, e não tendes necessidade de que                            alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas”.                                              (1 Jo 2.27 RA)


Nesse primeiro momento identificaremos sua teleologia etimológica, embora conheçamos os adjetivos que qualificam o termo é sempre necessário dizer que "unção" está para além dos significados produzidos atualmente no contexto religioso e pragmático da majoritária crença seja ela da “segunda onda ou terceira onda”¹[1].                  
Ora, é necessário dizer que o termo ‘unção’ tem sofrido um reducionismo, desgaste e porque não dizer “deturpacionismo” tão expressivo naqueles lugares de confissão evangélica pelo mundo e em nosso país que o artigo aqui escrito não dará conta de sinalizar o gigantesco absurdo de invenções que convencionalmente tem ocupado tais ministérios, porém nossa pretensão aqui é recuperar não só o significado etimológico do termo, mas resgatar o significado cooptado na história religiosa de culturas pré-hebreias e traçar seu itinerário ao longo do tempo tentando traçar uma breve genealogia de seu desdobramento na história das crenças religiosas, especificamente na árvore judaico-cristã.   



Genealogia da Unção


            No berço da questão hodiernamente tem-se conhecimento que a prática da unção é antecedida por culturas religiosas que surgiram antes do culto à YHWH. Os pesquisadores e historiadores da religião supõem que sua prática pode ter surgido entre
os grupos nômades que praticavam sacrifícios e que tinham o costume de untar de gordura os potes totens²[2], como parte de alguma refeição na comunidade, já outra linha interpretativa propõe que as unções tinham propriedades medicinais com a especifica finalidade de cura. Porém o que se sabe de fato é que o exercício prático desse ato foi bem averiguado na Babilônia e no Egito. Além disso, tal prática estava associada, de
acordo com historiadores da religião ao exorcismo e às cerimônias que preparavam os jovens para a sua entrada na sociedade dos adultos.


Lições com o Óleo da Unção


              Vamos examinar agora, mais minuciosamente, os ingredientes do óleo da unção e o que eles revelam sobre a unção do Espírito Santo. Especificamente, o óleo da unção continha mirra, canela, cálamo aromático, cássia e azeite de oliva e a Mirra. (Ex 30: 23,24 RA)                       
A mirra era um narcótico suave, usado como analgésico. Conhecida pelo seu cheiro agradável era também usada na fabricação de perfumes e cosméticos. A mirra se
encontrava entre os presentes que foram dados ao Bebê Jesus pelos magos (Mt 2:11, RA). Na Cruz, houve uma tentativa de se dar mirra a Jesus para aliviar o Seu sofrimento, porém Ele a recusou (Mc 15:23, RA).

Ao recusar esse analgésico, Cristo Jesus ficou firme em Sua missão de “provar a morte por todos” (Hb 2:9). Devido à sua fragrância, a mirra também foi uma das especiarias usadas para o sepultamento de Jesus (Jo 19. 39 RA). O uso da mirra como um agente que remove a dor tem um significado profético para nós. Jesus Cristo, o Ungido, veio para carregar os nossos fardos na Cruz. Neste lugar de sacrifício, Jesus cumpriu o Seu propósito de ser aquele que nos cura (1 Pe 2:24) e Aquele que nos liberta da escravidão do pecado e da morte (Hb 2:9, 14-18).

Como um símbolo profético no óleo da unção, a mirra nos retrata como o Espírito Santo nos ajuda a introduzirmos as pessoas na cura e libertação de suas angústias, da escravidão ao pecado e das enfermidades. O profeta Isaías fala profeticamente do poder da unção: “... o jugo será destruído por causa do óleo da unção” (Is 10.27, RA).                            
A palavra hebraica referente a um jugo sendo “destruído” neste versículo vai além de simplesmente ser danificado ou quebrado; ela significa completamente destruído.



Mas, afinal o que é Unção?

         É uma ação mística que evidencia a graça de Deus que nos é ministrada pelo “modus operandi” com a finalidade (teleologia) de capacitar a todos aqueles que foram chamados para o ministério (Diaconia). No entanto é necessário dizer que a unção se desdobra numa bilateralidade produzindo naquele que a possui percepção discernitiva e capacitação laborativa (práxis ministerial). 


Percepção discernitiva

         Como o próprio nome já diz “percepção” é uma faculdade da mente que nos faz discernir o certo do errado, porém não devemos aqui nesse caso confundir com moral, pois nesse caso o objeto, fenômeno ou sujeito analisado nem sempre se restringe aos limites da racionalidade humana, não esqueçamos que existem mistérios que até hoje são incompreensíveis. Nem tudo a razão alcança como dizia o bispo de Hipona Santo Agostinho que com precisão lançou um enunciado emblemático “Creio para que possa compreender”. Ele certamente estava querendo nos dizer que a razão se mostra insuficiente para atingir aquelas verdades espirituais que a mente finita não pode alcançar, porém é pela mesma razão que para se pensar, atestar e comprovar um determinado fato metafísico é necessário o respaldo inequívoco da fé, da intelectos fides quaerens, isto é, da fé inteligente, dessa fé que prossegue exatamente do ponto de
partida onde a razão estaciona. Sendo assim elas Fides et Ratio se complementam, se integram, se coadunam para uma teleologia.
         Contudo é necessário ratificar que a percepção discernitiva está interconectada com aquela unção que transcende o simbólico, o fenômeno, isto é, a unção nessa perspectiva leva o seu possuidor a enxergar o universo para além das representações, para além do véu das superficialidades das coisas. Uma vez alcançada essa unção (modus operandi) faz seu portador ler realidades metafisicas e fazer desses contextos uma interpretação exata e eficaz das epifanias ou hierofania ali manifestadas.
Ora, nesse aspecto unção se mostra como mediadora para a obtenção de informações necessárias e corretas para descrever a origem de um fenômeno físico e espiritual, se a origem é procedente ela se sustentará, porém se for improcedente será detectada e consequentemente sinalizada como espúria. 
Hoje as múltiplas práticas religiosas confundem-se com aquilo que se chama de unção.
        Atualmente a igreja evangélica no Brasil está vivendo uma fase dinâmica em que muitas fenomenologias esdruxulas seguidas de um pragmatismo instrumental invadem as mais diferentes searas. Com isso muitas igrejas acabam perdendo seu ethos originário e consequentemente sua dimensão identitária rompendo inclusive com a sã doutrina substituindo-a por uma babel de práticas insuportáveis e irresistíveis uma vez que confrontadas com a Word of God (Palavra de Deus) não podem resistir.


Práxis ministerial

        Não há dúvidas de que a capacitação de Deus (unção) além de habilitar o chamado para o serviço dá ferramentas para a manutenção do trabalho.
Entenda capacitação aqui não se trata de capacidade natural, mas sim chamado, existe o chamado pastor e o Pastor chamado. O Pastor chamado tem plena consciência de sua incapacidade e entende que a capacidade é uma dádiva de Deus para a execução do labor divino. Esse executar é “dunâmis”, vem do próprio Deus, que inspira o espirito humano com energia divina, potencializando nossa fraca vontade transformando-a em força de maneira que essa força cria resiliência diante dos mais difíceis e tétricos momentos da vida. E é exatamente aqui que paro para sinalizar o Pastor chamado, esse sim prosseguirá, resistirá firme as inclemências do tempo contrário, já não seria o caso do “chamado pastor” esse desiste, abandona, foge, pois não fora ungido para o labor eclesiástico. Vou usar outro exemplo para sua melhor compreensão.
Todos sabem que o carro só se locomove a partir da energia produzida pelo combustível ou pela eletricidade, isto é, o dinamismo, o movimento do veículo só existe em função disso. Ora, essa mesma lógica vale para a compreensão da mordomia e do fenômeno
ministerial. Acredito que sem o Espirito de Deus nos tornamos impotentes para a realização de nossa vocação que nos fora dadivada pelo próprio Deus para servir e glorificar seu nome. É a unção que nos move e nos torna servos, pois ela vem diretamente do próprio Deus.
Porém não se pode confundir batismo com o Espirito Santo com a presença do Espirito Santo ou toque do Espirito Santo, pois ser batizado é um fenômeno e sentir a presença do Espirito Santo é outro fenômeno bem diferente. Destarte, que “Estar no Espirito” nem sempre significa ter o Espirito Santo. Daqui para frente farei um pequeno corte epistêmico para distinção de fenômenos religiosos nem sempre convergentes.
Digo isso, pois de acordo com as escrituras o Espirito Santo se recebe quando recebemos a palavra, quem recebe a palavra de Deus em seu coração também recebe por meio da palavra de Deus o Espirito Santo. Não esqueçamos, pois, foi o senhor Jesus que disse: “E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.” (Jo 20,22RA).
Ali não ocorreu o batismo, mas sim inserção do Espirito de Deus pela própria palavra de Jesus que é a palavra encarnada, perceba a expressão “E havendo dito”.  No entanto isso não significa que quem recebeu a palavra recebeu a “unção” na verdade quem recebe a palavra enquanto palavra recebe o espirito que por ela é dado, isto é, se as palavras de Cristo são espirito e vida isso equivale dizer que uma vez que a palavra de Deus é recebida junto com ela se recebe o intérprete que inspirou aqueles que materializaram os escritos pregados.
Por esse motivo é necessário dizer que o batismo com e no Espirito Santo diferem em termos de propósito, pois batismo no espirito o neoconverso recebe assim que aceita o logos divino (palavra), como suficiência plena para salvação nesse batismo não a acepção, pois ele é soteriológico, isto é, vale para todos que de bom grado recebem a palavra. 
De acordo com Paulo, o apóstolo dos gentios:


"Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito. (1 cor 12-13 RA)



            Porém, o batismo com o Espirito Santo é com finalidade ministerial e aí vale a pena lembrar as palavras de Smith Wigglesworth, quando disse: “Os Atos dos Apóstolos só foi escrito porque os apóstolos agiram”. É importante ressaltar que eles só agiram por que a unção do Espirito Santo estava neles. Devo lembra-lhes que os discípulos de acordo com o evangelho já tinham o Espirito Santo da mesma forma que muita gente tem o batismo no Espirito santo na dimensão soteriológica.
No entanto, batismo com o Espirito santo é um marco na vivência dos discípulos de Jesus através do anúncio (Kerigma), ao mundo que nos é registrada no livro de Atos da
Igreja ou dos apóstolos. Quando digo isso não me refiro apenas à concepção pentecostalizada do falar em línguas (glossolalia), pois muita gente por não falar em línguas chega ao ponto de entrar em crise e conclui que o Espirito de Deus não está com elas isso pelo fato de não ter provado essa experiência. Portanto pensam tais pessoas que não foram batizadas com o Espirito Santo ou que não possuem a unção.
É necessário compreender que essa é uma das muitas sinalizações deixadas por Deus como dádiva sua para o reconhecimento dos carismas. Você que lê isto talvez não fale
em outras línguas (glossolalia), mas uma coisa é certa, isso não significa que você está sem a unção ou sem o Espirito de Deus, pois quem de fato o tem manifesta-o não por meio de estereotipias aparentes e sim por meio de frutos e do trabalho na seara do Senhor.
É por meio do fruto do Espirito de Deus que se desdobra o verdadeiro mover da unção de Deus. Além da capacitação para o serviço divino, a unção também  se manifesta nas atitudes de quem realmente teve um encontro com Deus.
Particularmente creio que o Espirito de Deus é o gerador de unção, dessa energia que irradia a alma e enriquece o espirito humano espiritualizando o ser e cristificando a alma.


Unção no Antigo Testamento

            O modus operandi de Deus por meio de seu Santo Espirito no período veterotestamentário graduava de acordo com o momento, quase sempre estava condicionado a atos consagratórios que caracterizavam e distinguiam os ungidos dos
não ungidos e nisso o óleo tinha uma referência singular. Na verdade ele era uma prefiguração da unção do Espírito Santo, segundo a normatização escripturísticos vamos encontrar as descrições minuciosas a respeito ao óleo da unção especial que nos revelam três princípios muito importantes:

Em primeiro lugar, Deus tem uma vontade soberana (onipotência) com relação à unção do Seu Espírito. Exatamente como Ele dirigiu os ingredientes do óleo da unção.


“O Senhor Deus disse a Moisés:
 Escolha as especiarias mais cheirosas para fazer o azeite sagrado de ungir, seguindo a arte dos perfumistas. Em três litros e meio de azeite misture o seguinte: seis quilos de mirra líquida, três quilos de canela, três quilos de cana cheirosa e seis quilos de cássia, tudo pesado de acordo com a tabela oficial. Use esse azeite para ungir a Tenda da Minha Presença, a arca da aliança, a mesa e todo o seu equipamento, o candelabro e o seu equipamento, o altar de queimar incenso, altar de queimar ofertas, junto com todo o seu equipamento, e a pia com o seu suporte. Assim você consagrará todas essas coisas, e elas ficarão completamente santas. E qualquer pessoa ou coisa que tocar nelas sofrerá por causa do poder da sua santidade. Você ungirá também Arão e os filhos dele e os separará para me servirem como
sacerdotes. Diga ao povo de Israel o seguinte: “Esse azeite de ungir deverá ser usado para sempre no meu serviço religioso. Não deverá ser usado no corpo de quem não for sacerdote. E vocês não deverão usar a fórmula desse azeite para qualquer outra mistura igual a essa. Esse azeite é sagrado e assim ele deverá ser tratado. Qualquer pessoa que preparar um azeite igual a esse ou usá-lo em quem não for sacerdote deverá ser expulsa do meio do meu povo.”   (Ex 30:22-33 NTLH). [ grifos meus]


           Como se lê nas escrituras a função do óleo era dupla, isto é, consagrava objetos e separava para o serviço divino aqueles que por Deus foram escolhidos. Destarte que é somente Deus que dirige a Sua unção, vejamos a unção de Saul, (1 Samuel 10,1 RA) onde nos informa o espirito de profecia que Saul foi ordenado rei pela vontade do Senhor. Destarte que a recíproca é verdadeira valendo para outros reis, usemos o exemplo do homem segundo o coração de Deus, Davi, que ao pecar contra o Senhor teve a repreensão pelo profeta Natã nas seguintes palavras.


“Então, disse Natã a Davi: Tu és o homem. Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Eu te ungi rei sobre Israel e eu te livrei das mãos de Saul; dei-te a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em teus braços e também te dei a casa de Israel e de Judá; e, se isto fora pouco, eu teria acrescentado tais e tais coisas (2 Sm 12.7-8 R.A)



       De acordo com os textos supracitados confirma-se à premissa de que “unção” no contexto judaico não é uma invenção e sim uma ordenança divina.

Em segundo lugar, o óleo da unção era para os sacerdotes que serviam no Tabernáculo (Ex 30:30). Ele não deveria ser derramado sobre a carne de ninguém que não fosse profano (Ex 30:32).

Em terceiro lugar, o óleo da unção não deve ser duplicado para outros usos, nem deve ser falsificado (Ex 30:32, 33). A unção com o óleo no Antigo Testamento simbolizava a
designação divina de um objeto ou pessoa. Esta designação consagrava o objeto ou a pessoa a um lugar ou função especial nos propósitos de Deus.


A Unção no Novo Testamento

            No Novo Testamento são empregadas três palavras diferentes para a terminologia “ungir”. Cada uma destas palavras revela um aspecto diferente da unção:


1. Chrisma (aparece 3 vezes): uma capacitação ou habilidade outorgada pelo Espírito Santo para sabermos o que é verdadeiro e certo; o poder do Espírito Santo operando em conjunto com a Palavra de Deus no coração do crente.

2. Chrio (aparece 5 vezes): referência um propósito ou comissão especial de Deus que separa a(s) pessoa(s) para se realizar uma dada tarefa. (Veja Lucas 4:18; Atos 10:38; 2 Coríntios 1:21; Hebreus 1:9.).

3. Aleipho (aparece 8 vezes): Derramamento físico de um óleo ou unguento. (Veja Marcos 6:13; Lucas 7:38, 46; Tiago 5:14.) Em Tiago 5:14, a unção não tinha um propósito medicinal. Ao contrário, ela era um símbolo tanto da presença do Espírito Santo como da consagração do enfermo para se pedir com fé a cura de Deus.
Devemos notar que não é errado recebermos ajuda médica, Deus criou os elementos dos quais os remédios são feitos, e deu sabedoria aos médicos para que os usem apropriadamente. No entanto, os cristãos devem viver pela fé em todas as decisões da
vida. Não devemos considerar a oração como sendo a última opção, quando nada mais funciona. Quando houver enfermidades ou ferimentos, procure primeiramente a Deus para a cura. Se Deus curar milagrosamente, aí então louvado seja o Seu Nome! Se Deus escolher usar a medicina e os médicos para curar, aí então louvado seja o Seu Nome! Se não houver nenhuma cura, ainda assim louvado seja o Seu Nome – pois, a nossa cura final e o nosso lar final estão em Sua presença, quando O veremos face a face (1 Tess 4:16-18). O nosso Deus é sempre fiel e digno de confiança!


Transferência de Unção?


             Quem nunca ouviu falar sobre a chamada “transferência de unção” muito praticada em alguns movimentos religiosos no mundo. Tais práticas encontram guarida no seio de igrejas onde a maioria dos membros não são alfabetizadas biblicamente, na maioria dos casos essas práticas ocorrem em igrejas cujo ministério não priorizam o estudo sistemático da palavra de Deus, à educação cristã, EBD, bem como os cursos de Teologia ou Seminários. Infelizmente hoje muitos líderes gananciosos utilizam o argumento para da unção para capturar dinheiro dos fiéis, é o caso do Pr. Adeildo costa que em um culto evangélico realiza transferência de unção pelos pés, já em outro culto esse mesmo Pastor derrama uma jarra de óleo sobre a cabeça, tais ações encontram-se em vídeos que foram publicados no You Tube e estão na internet disponível para aqueles que desejam assistir, por meio dos seguintes links[3]:                                             
             Poderíamos sem dúvida alguma chamar isso de manipulação do sagrado. Esses pregadores baseiam-se imprecisamente nos eventos bíblicos referentes a Elias e ao seu sucessor, Eliseu. (Veja 1 Reis 19:16,19; 2 Reis 2:1-13.)
Contudo, uma minuciosa análise do texto bíblico desautorizará tal esse ensino. Quando lemos que Elias de lançou o seu manto sobre Eliseu ele não estava transferindo unção como muitos querem ensinar (1Rs 19:19).  O fato é que tal ação descreve apenas a ratificação simbólica do que o Deus já havia falado com ele e sua chamada como sucessor de Elias (1Rs 19:16).
              Nesse evento, Elias não deu o chamado a Eliseu, como também ele não poderia dar-lhe a unção para cumpri-lo. Unção quem dá é Deus o homem nesse caso é o mediador, aquele que unge, reconhecendo aquilo que Deus já reconhecerá. Isso equivale dizer que nesse caso Elias simplesmente foi obediente à Palavra de Deus e comunicou o que Deus havia lhe ordenado que ele dissesse a Eliseu (1Rs 19:19). Eliseu reconheceu claramente que ele não tinha a capacidade de prosseguir com o ministério profético de Elias quando Deus o chamou. Eliseu sabia que ele precisava do poder de Deus (unção), indiretamente mencionado nas Escrituras como o “espírito de Elias” (2 Rs 2:9,15). Assim sendo, Eliseu pediu a Elias uma “porção dupla” do seu espírito (2 Rs 2:9).  Mas, como Elias era o profeta ungido de Deus, a sua única resposta ao pedido de Eliseu de uma porção dupla foi uma declaração profética: “coisa dura me pediste”, contudo, se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará” (2 Rs 2:10). Fica claro ao lermos este trecho bíblico que Elias sabia que ele não poderia dar nada espiritual a Eliseu. Ele poderia confirmar o chamado de Deus sobre Eliseu, mas ele não poderia ungi-lo para que ele cumprisse este chamado.
Assim sendo transferência de Unção é uma prática não bíblica, praticada muitas vezes distorcidamente, é aquilo que chamamos de eisegese, forçar o texto à dizer aquilo que ele não está dizendo.


O Ungido do Senhor

             A terminologia popularmente conhecida por “messias” significa “o ungido”. Nos evangelhos do Novo Testamento não há nenhuma dúvida de que Jesus de Nazaré era (e é) o Hamashia, (Hb) e o Messias, (Gr.) “Ungido”.
           Em Nazaré na Sinagoga (Bêit-Midrash) ele confirmou a Unção de Deus em sua vida dizendo por que o Espirito do Senhor está sobre mim pelo que meu “ungiu” [...], Jesus foi ungido para uma missão (Telos) ou propósito específico (proclamar as boas notícias aos pobres, cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros) de evangelizar (práxis laborativa). Na linguagem grega original do Novo Testamento, Jesus é chamado de “o Cristo” ou “Jesus Cristo”. “Jesus” é um nome, mas o termo “Cristo” é um título que significa “o Ungido”.
           Todo o Novo Testamento claramente revela Jesus como sendo o Ungido (Jo 1:41; 4:25,26). Os judeus estavam buscando um messias (“o mesmo que Hamashia “o ungido”“.), um rei da linhagem real de Davi, que restaurasse a nação de Israel à sua antiga glória, como nos dias de Salomão. Mas Jesus não apareceu à imagem e semelhança do monarca Salomão por esse motivo, muitos judeus rejeitaram a Jesus. Ele não Se encaixava dentro dos esquemas teológicos caducados e obsoletos dos fariseus nem em suas errôneas e incorretas ideias preconcebidas sobre o Messias prometido (MT 11:1-19; Jo 6:26-29). Os judeus não compreenderam que Deus tinha um plano muito maior, um caminho maior, um propósito maior além daquele internalizado por eles, cujo condicionamento os cegou a tal ponto de não enxergarem mesmo tendo vistas e de não ouvirem mesmo tendo ouvidos, ele não compreenderam que o projeto de Deus ia além deles (Is 42:5-9; 49:5, 6; At 4:8-12; 13:44-49). O Senhor deu a eles (e a nós) algo muito maior do que um rei terreno e temporário. Ele deu ao mundo o Rei dos reis, um Salvador para todas as versões religiosas (universo), por toda a eternidade – Jesus, o Messias! Toda a glória ao Seu nome, por que dele por ele e para ele são todas as coisas eternamente. Ele é o alfa e o ômega, o alef e o tav, o principio e o fim, o primeiro e o último, tudo em todos e o todo em tudo. Ele é o tao, ele é o que interconecta o profano com o sagrado, a criatura com o criador, o homem com Deus. Nele a unção de Deus uma vez por todas corrobora a finalidade do ser ungido. Ele é o Ungido dos ungidos.


Banalidade da Unção

              Seguindo esta trilha, gostaria de apresentar uma abordagem sobre as relações sincréticas que se estabeleceram na prática religiosa da igreja evangélica brasileira. Contudo como o nosso propósito aqui é falar sobre a unção, acredito ser relevante levantar problemáticas resultantes desse interacionismo como já dito na introdução que ocorre em muitos cultos, onde se assiste quase que diariamente a propaganda religiosa da rosa ungida, da meia ungida da fronha ungida, etc.
De acordo com CAMURÇA, (2009, p.174):

A força tendencial dessa modalidade intercomunicante de religiosidade, além de marcar as religiões tradicionais – católica, africana e indígena – com uma “porosidade” e “contaminação” umas em relação às outras (apud, Sanchis, 1997; 1988), forjou em solo brasileiro religiões tipicamente brasileiras pela articulação de elementos retirados dessas mesmas religiões tradicionais, como a umbanda e, mais recentemente [...].


        Ora é exatamente no hibridismo religioso que repousa essa fusão de crenças que se cruzam em um sincretismo replicante, mas afinal de contas o que é sincretismo?
De acordo com Boff, (1981, p.146):

Para o antigo secretário do Conselho Ecumênico das Igrejas W.A. Vissser1’t Hooft o sincretismo constitui a grande tentação do século, pois a alma humana não é naturaliter christiana, mas naturaliter syncretista; chega afirmar que o é muito mais perigoso do que o ateísmo integral [...].

       É exatamente nessa mistura de práticas religiosas que se deturpa aquilo que se concebe por “unção”, isto é, não se tem mais nos dias hodiernos consciência dos limites entre o sagrado e o profano. Com isso quero dizer que o sincretismo funde esses dois universos, sacralizando o profano e profanando o sagrado de maneira que unção para muitos nada mais é do que o simples untar de óleo em um objeto que se transformará a partir do ato em uma espécie de amuleto. Para exemplificar essa tendência citaremos a obra, Grande Sertões: Veredas de Guimarães Rosa (1994, p. 15):

Hem? Hem? O que mais penso. testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sarar da loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... “Muita religião seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio. Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico […] e aceito as preces de compadre Quelemém, doutrina dele, de Cardéque [Kardec]. Mas quando posso, vou no mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora cantando hinos belos deles. […] tem uma preta: Maria Leôncia […] as rezas dela afamam em virtude e poder. Pois a ela pago, todo mês – encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos um rosário. Vale, se vale”.


       É interessante ressaltar que no romance escrito em 1956 por Guimarães Rosa, já está explicito a manifestação múltipla de crenças subjetivas que o individuo carrega dentro de si tendo como paradigma uma lista de opcionalidades credais que são exclusivas do Brasil. De acordo com Santos (2008, p. 26):

O Brasil é um país afro-luso-americano. Americano, evidentemente, por sua situação geográfica e sua população indígena; lusitano, por ter sido colonizado pelos portugueses; e africano, não só porque a nação brasileira foi formada pelo trabalho nos negros escravos, [...] profundamente marcada por seus costumes, sua religião e suas tradições.


        Diante das informações sobre a constituição religiosa do povo brasileiro pode-se conjecturar por que tais práticas sincréticas estão presentes na eclesiocentralidade de nosso país em especial na IURD[4] (que a meu ver é a que mais reproduz em seus cultos os ritos da religião  Afro, isto é, o candomblé e por que não dizer umbanda), que propaga pela mídia televisa e radiofônica  as campanhas, bem como os elementos que compõem o cenário não só da religião africana, mas da pajelança indígena como é o caso da religião fundada por Zélio de Moraes.
        Outros elementos destacadamente sincréticos nesse ramo do evangelismo é o uso de artifícios por pastores durante as cerimônias, como óleos, rosas ungidas, fronhas ungidas, tudo uma grande mistura de elementos africanos, ameríndios e provenientes do catolicismo popular. A quem diga que o êxito da IURD se deve ao líder e fundador, Bispo Edir Macedo profundo conhecedor da religiosidade brasileira.
        Enfim, como disse da IURD até os mais recentes movimentos evangélicos, no caso à Igreja Mundial do Poder de Deus que é uma dissidência da Igreja Universal, encontramos a mesma prática e deturpação do que se concebe por unção no sentido originário da palavra.                                      [4] IURD- Igreja Universal do Reino de Deus.


Por esta razão encerraremos o presente artigo considerando alguns aspectos do que a unção não é no sentido original em relação ao significado que se pretendeu dar:
1-     Unção não é um ato mágico onde o untar transforma o objeto tocado em sagrado.

2-     Unção não é um momento de poder ou emocionalismo onde aquele que se coloca como possuidor dela propaga-a enfatizando que nele e em seu presente óleo está a cura.

3-     Unção não é materializada em amuletos, como muitos querem que o sejam, no caso, tijolos, chaves, meias, palmilhas ungidas, etc.

4-     Unção não é barganha para recebimento de um favor de Deus, isto é, meio para alcançar algo que beneficie aquele que compra o favor divino.

5-     Unção não é cargo, posição ministerial. Todas estas coisas não tem valor algum contra o pecado.

6-     Unção não é soteriologia. Isto é, uma vez ungido, ungido e salvo para sempre.

7-     Unção não é Batismo no ou com o Espirito de Deus.


Conclusão

           Portanto, compreendendo o que de fato a unção não é pode-se entender o que a unção de Deus é, e foi exatamente isso que ao longo desse opúsculo tentamos mostrar, desde sua genealogia até o presente momento.                                                                                
Esperamos que você amigo leitor internalize o discurso aqui intencionalizado e ao mesmo tempo confronte aquilo que se mostra como luz no cenário evangélico quando na verdade não passa de obscuridade sincretista. 
          Foi por esse motivo que procuramos apontar para o fenômeno mostrando como o neopentecostalismo absorveu de outras culturas religiosas uma gama de práticas não bíblicas que contradizem os ensinamentos da palavra de Deus e que deturpam o que se conhece como “Unção” esboroando sua real teleologia. Assim “Unção” como já sinalizada nessa obra tem uma bilateralidade que se desdobra em percepção discernitiva e práxis ministerial.                                                              No entanto devo dizer que enquanto estivermos estudando aquilo que a meu ver está para além do nosso conhecimento, precisamos reconhecer que há mistérios que aqui conhecemos em partes. Deixe-me esclarecer isso há um elemento da soberania de Deus no assunto da unção que ultrapassa o nosso modus pensandi (1 Cor 13.9).
          A nossa única resposta à onipotência de Deus deve e precisa sempre ser, aquela em que nossa subserviência se rende ao senhorio e a vontade de Deus, que em sua sapiência, reservou-nos um elemento chamado mistério cuja razão não pode alcançar plenamente dado a altura de seus caminhos.  (Isa.55.9, Dt 29.29)


The End.



REFERÊNCIAS:

BÍBLIA. Português. Genebra, Tradução de João Ferreira de Almeida
São Paulo, 1999.


BÍBLIA. Português. MAcARTHUR. Tradução de João Ferreira de Almeida Revista e
Atualizada, 2ª .edição. São Paulo. Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.


BÍBLIA. Português de Revelação Profética, São Paulo. Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida (Revista e Atualizada), 2000.

BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução João Ferreira de Almeida (Revista e Corrigida). 2000.

BÍBLIA. MAXICOLOR: Nova Versão Internacional/ (Traduzida pela Comissão de Tradução da Sociedade Bíblica Internacional). – São Paulo: Editora Vida, 2007.

BOFF, Leonardo.  Igreja Carisma e Poder. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1981.

CAMURÇA, Marcelo Ayres. Entre Sincretismos e “guerras santas”: dinâmicas e linha de força de campo Religioso Brasileiro. março/maio 2009. Revista Usp, n. 81, p. 173-175.  Disponível em: < http://www.usp.br/revistausp/81/14-marcelo.pdf > acesso em: 11 de Out. 2014.

CHAMPLIM.N.R, Enciclopédia de Bíblia, teologia e filosofia, Hagnos., 2004. Pg 524.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. Trad. Joaquim Pereira Neto. São Paulo: Paulinas, 1989, p. 139-169; 239-296.
FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro in: ANTONIAZZI, Alberto (org.). Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.p 67-159.

ROSA, J. Guimarães. Grande Sertões:Veredas, RJ. Editora Nova Aguilar, 1994. p.15

SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nàgô e a morte: Páde, Àsèsè e o culto Égun na Bahia, traduzido pela Universidade Federal da Bahia. 13. Ed.- Petrópolis, Vozes, 2008.



[1] Paul Freston, sociólogo da religião diz-nos que a segunda onda, insere-se no país na década de 1950 e 1960, com a Igreja Quadrangular (1951), Brasil para Cristo (1955) e Deus é Amor (1961), surgido
dentro do contexto paulista; - a terceira onda, também chamada de neopentecostais, surge na década de  1970 e 1980, entre elas, a Igreja Universal do Reino de Deus (1977) e Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), surgido no contexto carioca.


[2] O totem é a representação material, física, essa inferência é feita em função do fato que os objetos que são considerados sagrados nestas sociedades ou tangível de uma força externa e superior ao homem que o faz distingui duas dimensões: a sagrada e a profana : “Essas decorações totêmicas já permitem pressentir que o totem não é apenas nome e emblema. É durante as cerimônias religiosas que o totem, embora sendo etiqueta coletiva, assume caráter religioso: com efeito, é em relação a ele que as coisas são classificadas em sagradas e profanas. Ele é o próprio tipo das coisas sagradas.” (DURKHEIM, 1989, p. 159)




[3] Transferência de unção com os pés: um novo jeito de pedir dinheiro aos fieis! Disponível em                                  < https://www.youtube.com/watch?v=OMwEJbcN4cY >.Acesso em: 12 Out. 2014.

Pr. Adeildo Costa- derramando o azeite. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=ZyQQAEp7R1Q >.Acesso em: 12 Out. 2014.



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