FÉ E RELIGIÃO




Luiz Felipe Pondé, que é professor de Ciências da Religião na PUC-SP, conversa com o teólogo Ed René Kivitz, o gerente de TI ateu Jaime Alves, o católico praticante Italo Fasanella e Ma Dhyan Bavhia, o vídeo apresenta a discussão sobre a Fé. Falar de religião é uma forma de interrogar sobre a condição humana; é caminhar entre a fé e a razão.






Por Paulo Mazarem

Não há dúvidas de que entre Fé e Religião há um senso e concomitantemente um dissenso, enquanto para uns fé e religião são a mesma coisa, para outros fé e religião são inimigas mortais. 

O presente texto aqui tem por finalidade problematizar a questão e clarificar ao mesmo tempo o assunto, tendo ciência por antecipação que para se compreender ambos os termos é necessário no minimo universalizá-los e relativiza-los para criar categorias de análise que supram a insuficiência existente nos limites de um só saber religioso, quase sempre dogmático.

Por essa razão livrar-se de toda "Meta-carga-teórica" é indubitavelmente um imperativo que não só torna consistente à pesquisa cientifica como favorece "Lá Methóde". 

Porém há de se admitir que nesse egresso da religião para a fé especificamente o da cultura ocidental que privilegia a crença monoteísta, crença num Deus único, criador de todas as coisas e portanto "absoluto" que se discute religião e fé.

O que distância uma da outra, o que há de comum entre ambas? 

Longe de qualquer pretensão onisciente, os fragmentos literários aqui presentes tem o objetivo de tornar mais clara essa nebulosa dissidência existente entre ambas ora interligando-se mostrando-se passível de convivência e ora desagregando-se, fortalecendo ponto de vista cristão, principalmente para as religiões de conversão que afirmam ser impossível o conúbio entre fé e religião.

Mas o que seria fé? O que seria Religião?

Ora todo ponto de vista parte de um ponto, eis a questão?

Quando problematizamos essa questão entre fé e religião, precisamos localizar geograficamente o interrogado, tendo como premissa a concepção que não existe fé ou religião fora dos limites espaciais, isto é sem um espaço concreto para a manutenção de seu rito e atualização de seu mito.

Seja em Meca, Jerusalém, na Índia ou na Bahia, o interrogado, (crente) vai desenvolver sua dialética religiosa à partir de sua vivência (esfera religiosa) e de sua experiência religiosa (mística), que nem sempre é metafisica, como alguns querem sugerir, mas sempre física.

Crer em Deus ou não crer, eis a questão? 

G.K. Chesterton: " A história dos últimos séculos nos provou que, quando deixamos de acreditar em Deus, sempre acabamos acreditando em qualquer bobagem como 'história, natureza, ciência, energias, política, em si mesmo tanto faz'.

A fé é uma terminologia religiosa, uma crença no invisível, na divindade, acredito que não seria exagero afirmar que o legado judaico cristão nos familiarizou com o termo.

Todos nós estamos acostumados com a frase, a fé de Abraão, o patriarca que creu em Deus, enfim, quando falamos sobre fé, (ocidente) associamos diretamente a uma experiência com  YHWH, ALÁ, JESUS. 

Aqui está a distinção entre fé e religião, fé para um judeu, islâmico ou cristão está em harmonia com a crença na divindade, o que não seria correto para um oriental, isto é, não seria crença apenas em uma divindade, mas uma fé em si mesmo, o budismo é um exemplo disso.

De acordo com Émile Durkheim ( 2003, pg 13) :

Existem grandes religiões em que a ideia de deuses está ausente, nas quais, pelos menos, ela desempenha tão-só um papel secundário e apagado. É o caso do budismo. O budismo, diz Burnouf, apresenta-se, em oposição ao bramanismo, como uma moral sem deus e um ateísmo sem natureza. Ele não reconhece um deus do qual o homem dependa, diz Barth; sua doutrina é absolutamente atéia, e oldenberg, por sua vez, chama-o “uma religião sem deus”.

De fato, o essencial do budismo consiste em quatro proposições que os fiéis chamam de quatro nobres verdades.

A primeira coloca a existência da dor como ligada ao perpétuo fluxo das coisas, a segunda mostra no desejo a causa da dor; a terceira faz da supressão do desejo o único meio de suprimir a dor; a quarta enumera as três etapas pelas quais é preciso passar para chegar a essa supressão: a retidão, a meditação e , enfim, a sabedoria, a plena posse da doutrina. Atravessadas essas três etapas, chega-se ao término do caminho, à libertação, à salvação pelo nirvana.

Ora, em nenhum desses princípios está envolvido à divindade. O budista não se preocupa em saber de onde vem esse mundo do devir em que ele vive e sofre; toma-o como um fato e todo o seu esforço está em evadir-se dele. Por outro lado, para essa obra de salvação, ele só pode contar consigo mesmo: “não tem nenhum deus para agradecer, assim como, no combate, não chama nenhum deus em seu auxílio”. Em vez de rezar, no sentido usual da palavra, em vez de voltar-se para um ser superior e implorar sua assistência, concentra-se  em si mesmo e medita, isso não significa “que negue frontalmente a existência de seres chamados indra, agni varuna, mas julga que não lhes deve nada e que não precisa deles, pois o poder desses seres só pode estender-se sobre os bens deste mundo, os quais, para o budista,  são sem valor”.

Portanto ele é ateu no sentido de desinteressar-se da questão de saber se existem ou não deuses. 

Perceba que para Durkheim a religião oriental o budismo por exemplo descarta a ideia de divindade substituindo-a por uma fé ou crença na humanidade, ou no eu interior para ser mais preciso.

Se o conceito de Deus no ocidente é de um ser supremo, criador, Todo poderoso (El Shaddai), único, no Oriente o "divino" estaria presente em tudo, manifestando-se em muitas divindades (políteísmo), ou como uma força impessoal que permeia tudo e a todos (panteísmo) ou ainda como uma energia individualizante.
(experiencia do sagrado).

É exatamente por essa questão que à esfera religiosa precisa ser localizada no espaço, pois no oriente para ser mais claro no Japão, o conceito não é "sui generis" em relação à "Índia", tomemos por exemplo às divindades. 

Sem paralogismo algum "religião" além de ser um termo polissêmico no ocidente é indefinível no oriente, pois no oriente o social não está divorciado do religioso, isto é, não há desconexão entre a vida religiosa e a vida social, como é o caso do Islã, qualquer muçulmano no momento da "oração" pede licença onde estiver estende o tapete em direção a Meca e cumpre o seu rito, independente do lugar que esteja, diferente de nós ocidentais que fragmentamos a vida religiosa, divisando a vida religiosa da vida social. para eles tudo é a mesma coisa, não há diferença, por esta razão "religião" para eles é um termo inconcebível, pelo menos no que tange a espiritualidade.

Se no ocidente aos domingos vamos ao culto, a missa, a sessão espirita, ao barracão ou em qualquer outro lugar de mística, é exatamente lá, (esfera religiosa) que materializamos essa espiritualidade através do rito, já não é assim com  algumas religiões de caráter universal e religiões com função de preservação do patrimônio étnico-cultural que procuram na vivência diária aquilo que chamamos no ocidente de espiritualidade, materialização do seu "modus vivendi" no sagrado, no sagrado de todos os dias e não dos fins de semana.

Porém é preciso lembrar sempre que os paradigmas religiosos dados ao sincretismo principalmente no Brasil estão cada vez mais frouxos no processo histórico, como é o caso do candomblé que perdeu sua africanização quando chegou ao país e que agora procura recuperar sua herança étnica.

Veja que não é tão simples assim conceituar o que é fé e o que é religião, num simples corte epistemológico.

Minha análise não deixa de ser um fragmento hermenêutico diante do universo holístico de circulação desses enunciados.

Porém minha tarefa aqui é "ressignificar" os termos e sublinhar sua aparente conexão e contradição, isto é, a conexão entre fé e religião e fé e não religião.

Enquanto à fé evidência um dado para a crença na religiosidade-religião que é sempre humana, isto é, em um Deus, divindades, natureza, etc, à religião também evidencia-se, sendo percebida como algo fenomenológico e que ganha na pós-modernidade categorias diferentes de análise devido as morfologias que sofre no processo de permanência e de transmutação na história de seus desdobramentos.

Já    Já fé e a não religião surgem como um antagonismo pelo fato de muitos não concordarem com essa relação nupcial entre ambas, parametrizando fronteiras entre uma e outra, destacando suas diferenças e instrumentalizando o discurso de sedução tornando a fé atraente exatamente por essa desconexão com a religião, vendo sempre a fé como algo que não se funde com os esquemas da vida religiosa, pois o homem de fé, ocidentalmente falando é alguém que experienciou o divino, por essa razão ele entende que nem sempre a religião ou o religioso concebido nos mesmos termos de Rudolf Otto, isto é, o numinoso confere uma verdadeira experiência com o sagrado, por essa razão ele deprecia a religião e privilegia a fé, se para Otto  o "Numinoso" é a fé e a religião juntas para o Cristão por exemplo fé é uma coisa e religião é outra.


REFERÊNCIAS:

DURKHEIM, Émile, 1858-1917. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália/; Tradução Paulo Neves. - São Paulo: Martins Fontes, 1996. - (Coleção Tópicos). 






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