O COELHO GERMÂNICO (EASTER) E O CORDEIRO JUDAICO (PASSOVER): BRICOLAGENS CULTURAIS.


Entre a palavra e a coisa há uma distância, tão grande como entre os enunciados parônimos (ratificar/retificar). Ora, o mesmo ocorre entre o significado (realidade)  e o significante (imagem mental) de acordo com Saussure e sua filosofia estruturalista.  
No entanto, é em Quine que a estética da recepção (sujeito) encontrará sua polissemia conceitual significante. 
Ele (Quine) sinaliza que nenhuma palavra tem sentido fixo, e mostra-nos no exemplo abaixo que cada contexto recebe e pensa de acordo com as categorias racionais (sociais) que plasmam o individuo.



Para o individuo laico de nossa cultura brasileira, por exemplo, o termo (Coelho) não é de todo unívoco. 
De modo que entre o Insider (adepto religioso) e o Believe (pesquisador Outsider) as nuances serão inequivocadamente expressivas. O que quero dizer é que enquanto cientista da religião devemos ser democráticos em nosso critério metodológico, uma vez que coelho pode significar em nossa cultura no dia de Páscoa um momento oportuno para se consumir muito chocolate e ao mesmo tempo um momento para se refletir sobre o significado dessa festa, quando questionados. 




Particularmente tenho presenciado no âmbito eclesiástico evangélico e católico que não há nenhuma dissidência ou querela teológica entre o coelho e o cordeiro.





Parece-me que ambos fundiram-se num "melting point" cultural, onde não se sabe mais o que é coelho e o que é cordeiro. Penso que o mesmo seria aplicável para São Nicolau (Papai Noel) e Jesus (Natal).

Porém vou problematizar o assunto para encontrar na história a relação entre o coelho e o cordeiro.

De acordo com Fernandes, Cláudio: 

"O símbolo do coelho é, seguramente, um dos mais associados à data da Páscoa, apesar de não estar atrelado ao significado cristão propriamente atribuído a essa data, isto é, a Ressurreição de Cristo. Para compreender os motivos dessa associação e, mais, para compreendermos o porquê de o coelho ter a “função” de “trazer os ovos” – hoje em dia, de chocolates – da Páscoa, precisamos revistar a história. O coelho é um animal que simboliza fertilidade graças à sua intensa prática reprodutiva. Desde civilizações bem antigas, como a egípcia, a ligação entre coelhos e fertilidade, primavera, nascimento, etc., é estabelecida. Na Europa, os povos germânicos, que habitavam a região norte – atualmente, a Alemanha –, possuíam uma narrativa mítica sobre uma deusa da fertilidade cujo nome era Ostara. O coelho era símbolo do culto a essa deusa, posto que, passado o inverno e tendo início o período da Primavera (estação que simboliza o “renascimento”, a floração, a fertilização), os coelhos eram, com frequência, os primeiros a saírem de suas tocas e começarem a reproduzir-se. Aos coelhos, símbolos de Ostara, as tradições rituais germânicas associaram a prática de entrega de ovos de aves pintados com tintas para as crianças. Essa prática valia-se do subterfúgio da “caça do coelho”. No momento em que iam caçar os coelhos, as crianças encontravam, escondidos nos campos, os ovos adornados. A cidade de Ostereistedt, na Alemanha, leva esse nome em razão da referência a essa prática. No período da Idade Média, o culto à Ostara e à estação da Primavera logo passou a ser associado à Ressurreição de Cristo, em face da cristianização dos povos bárbaros. No entanto, a assimilação do mito germânico pelo cristianismo não implicou a abolição total dos ritos a ele associados. A prática da entrega de ovos passou a ser relacionada, portanto, à Páscoa, e não mais à deusa Ostara. Com a leva de migrações alemãs para o continente americano, essa prática generalizou-se. Os mais antigos registros sobre a lenda alemã do coelho que traz os ovos para as crianças datam de 1678. Enfim, o Coelho da Páscoa é um símbolo que tem origem em mitos e ritos germânicos e em sua articulação com a tradição cristã na Idade Média. Em sociologia da religião poderíamos chamar isso de bricolagem (montagem) cultural onde uma determinada tradição religiosa se utiliza dos elementos formativos e identitários de uma cultura para plasmar a sua própria cultura. Em tese equivale dizer que o desdobramento disso tudo se assemelha aquilo que conhecemos por nome de sincretismo. A questão que ora se mostra relevante não é nem tanto as origens da celebração, mas o pragmatismo capitalista que se utiliza de elementos culturais para inflar o mercado econômico".


Uma vez que esse trajeto histórico é percorrido penso na hipótese de se contrastar o significado conceitual entre "Easter e Passover".


A palavra inglesa Easter" é a uma derivação da palavra germânica transliterada Ostera" que para os germânicos era a deusa da fertilidade, (que segurava em suas mãos um ovo e que em seus pés havia uma coelho pulando alegremente ao redor do seu corpo nu) e da vida. A festa a Ostera foi cristianizada e dai surge os assimilacionismos culturais entre o coelho e o ovo símbolo de vida nova, fertilidade com Cristo e a ressurreição vida plena que vence a morte. Entendendo isso compreenderemos por que a páscoa cristã e ao mesmo tempo a páscoa comercial se complementam, ao passo que Passover (passar sobre ou em cima) é o mesmo que Pessach (Páscoa Judaica) e diferentes de Easter.
É claro que entre a Páscoa Judaica (Pessach) e a Páscoa Cristã (Easter) existem diferenças significáveis, a começar pelos elementos que compõem a ritualística.
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No vídeo abaixo você poderá concluir por si mesmo o significado da Páscoa (Pessach) para os Judeus. 










Abaixo segue um vídeo trazendo perspectivas históricas a repeito da Páscoa, bem como das construções e sentidos que o  termo foi adquirindo ao longo do tempo.








Vimos num primeiro momento a polissemia do enunciado coelho, depois o melting point cultural, (onde coelho e cordeiro parecem estar fundidos), logo a seguir as influência da tradição religiosa Germânica que cultuava Ostara e suas aproximações com o cristianismo, e por fim o que significa a Páscoa Judaica . 

E o obviamente não poderia jamais concluir minha proposição sem mencionar a alienação produzida pelo capitalismo e o modo como ele transforma (verdinglichung) o sentido das coisas.  Destarte que o que ele não extermina, isto é, some sem deixar vestígios, ele modifica alterando por completo a teleologia.

homo religiousos ele é uma espécie de griot em sua cultura. Alguém que preserva memórias, no entanto com a laicização da vida cotidiana e a destradicionalização do modus vivendi, não percebemos que o devir (fluxo existêncial) invisibilizá  esses fatos históricos de modo que ao se interpelar um homem secularizado a resposta imediatá a respeito do que vem a ser a Páscoa é COELHO. 

Coelho? Se ele então perceber que a pergunta é capciosa então ele tentara inventariar sua concepção a respeito do assunto. 

Ora, apesar das polissemias não podemos desprezar as diferenças conceituais entre o coelho e o cordeiro. 
Certa vez li em um opúsculo a seguinte provocação. O autor injuriado dizia não venham me dizer que o leão de Judá é o cavalo de Tróia. 


Paulo Mazarem
Florianópolis
27 Mar. 16



REFERÊNCIA:

FERNANDES, Cláudio. Coelho da Páscoa. Disponível em: <http://brasilescola.uol.com.br/pascoa/coelho-da-pascoa.htm > Acesso em: 27 Mar. 16


O livro da Filosofia. [Tradução Douglas Kim]. - São Paulo: Globo, 2011. p. 223, 279


Páscoa- Uma História mal contada. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=sza7TVpI7dU > Acesso: Acesso em: 27 Mar. 16


Torá em Debate - A Festa de Pêssach- 1ª Parte. Disponível em< https://www.youtube.com/watch?v=-gzTXHR4P1o> Acesso em: 27 Mar. 16


Easter e Passover: qual a diferença? < http://www.inglesnapontadalingua.com.br/2012/04/easter-e-passover-qual-diferenca.html > Acesso: Acesso em: 27 Mar. 16





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