MUDANÇAS


Temos de nos tornar na mudança que queremos ver. 
 Mahatma Gandhi


Paulo Mazarem[1]


O presente artigo se propõe a tratar sobre o tema “mudanças”, seu significado e sua trajetória nos mais diferentes temas que vão do pensamento, sexualidade, amor, religiosidade, tecnologias e paradigmas científicos, trabalhando com a ideia de que todas as transformações realizadas pelos homens mudaram em certo sentido as suas condições de vida, mas não sua humanidade, sua ontologia como um todo. A proposta é problematizar e polemizar o titulo aqui proposto na intenção de mudar sua maneira de ver as coisas no mundo que não muda, quando homens e mulheres permanecem os mesmos. 


AS PRIMEIRAS MUDANÇAS E FILOSOFIA DO SER E DO DEVIR ?


As mudanças ocorrem em qualquer época, mas no século XIX, pontua o historiador, “a própria natureza das mudanças se modificou; elas tornaram-se muito mais rápidas e irresistíveis do que haviam sido no passado” (1999, p.43). Sim as mudanças estão acontecendo a uma velocidade que deixa até a própria luz sob suspeita.

Mas isso é um assunto filosófico antes de mais nada, então para jogar um pouco de  luz no conceito e na provocação, vamos analisar o que foi pensado a respeito disso na Grécia Antiga. Dessa maneira a pergunta é, Ser (mudança) ou não Ser (mudança) = Devir. Eis, a questão!  

Para pensadores que buscam na gênese do pensamento do mundo as fontes que problematizaram tais conceitos, é preciso dizer que mudança é algo ilógico para Parmênides. Por que segundo ele confunde-se aparência com essência. E ser é essência e essência é imutável, eterna e una. Mas o que é imutável para Parmênides, o homem, a natureza, Deus, não para Parmênides o “pensamento” é imutável, isto é não muda. Já Heráclito de Éfeso, dizia que tudo é movimento, fluxo, transformação contínua, a isto ele chamou de Devir. E o fez estabelecendo opostos, mostrando o estado alterado das coisas, dia-noite, calor-frio, luz-trevas, etc... Parmênides o ridicularizava Heráclito dizendo não acredito em homens de duas cabeças. Logo, para Parmênides não existe mudança o que existe é  aparência, por que o que é É e não muda. Logo, essa dialética põe em xeque toda a construção programática de nossos conhecimentos, levando-nos a seguinte pergunta, quem está com a razão afinal de contas? Há ou não há mudança?
Na noosfera (esfera do pensamento humano) segundo Parmênides, talvez não hajam mudanças, mas no entanto no cosmos estamos a todo instante contemplando alterações geológicas, físicas, climáticas  (macrocósmica) e fisiológicas, ontológicas (microcósmica) e bacterianas e virológicas (nanocósmica).
Então pode-se dizer que crenças não mudam o que mudam são as ideias (Ortega Y Gasset) a respeito das crenças, mas não foi Platão quem sugeriu que  mundo material é um simulacro, uma cópia da cópia e que o hiperurânio (mundo das ideias) é o lugar de onde emerge toda a materialidade sendo a própria materialidade uma cópia e não a realidade em si mesmo? Sim, foi Platão que nos brindou com a alegoria da Caverna para nos dizer que o mundo material é uma sombra ao passo que a realidade está acima de nós e não nesse mundo.
Gosto de Platão, mas não sei até onde as bactérias e vírus entram nesse jogo? (Hshshs). Ou qual seria a sua forma no hiperurânio. De fato, Platão nos ajuda a entender Metafísica, mas é com Aristóteles que vamos entender que é do mundo sensível que se parte para explicar a realidade e não do mundo das ideias abstratas. E o que muda nisso? Pois, bem na verdade esse quatro pensadores nos ajudam a compreender o nosso mundo, a nossa vidinha e tudo o que está aí. Mas falando em verdade, os céticos continuam buscando-a e Clitomâco, Carnéades e outros acadêmicos afirmam que ela é inapreensível. Só um dogmático como Aristóteles mesmo para ter tanta certeza.
 Talvez seja por causa disso que eles não morrem, pelo menos não no pensamento, certo. Mas deixando essas bobagens filosóficas de lado, vamos ao que interessa, você acha mesmo que o mundo mudou, que as pessoas mudaram? 

MUDANÇAS NEGATIVAS


Há quem diga que a humanidade não mudou e que as revoluções estas sim mudaram o mundo, mas não as pessoas. Um exemplo,  a revolução tecnológica e  industrial. Aliás, o que de fato mudou e está mudando e se (re)inventando ininterruptamente são as tecnologias. Daí o por que da afirmação de muitos de que as tecnologias transformam nossas vidas, mas não nossa humanidade.
Um exemplo disso está nas guerras, na  aura sacra fames (amor pelo dinheiro), ganância, inveja, ira. Construímos sistemas de pensamento como comunismo e outras utopias, e ao invés de progredirmos, retrocedemos, fabricamos bombas, armas biológicas, químicas e nucleares. Só a segunda guerra mundial contabilizou 50 milhões de mortes.


MUDANÇA DE PARADIGMAS


O século passado viu na ciência o progresso da humanidade com as promessas positivistas de Augusto Comte (e a superação das eras metafísica e teológica o mundo) de que a libertação dos mitos e encantos mágicos propositivados pela religião, nos tornariam seres mais desenvolvidos. Será que isto aconteceu realmente?
Esses dias, ouvi alguém dizer que a humanidade evoluiu, mudou, por que no passado havia inquisições, perseguições, crueldades e barbaridades, etc... Eu me pergunto será que isso não ocorre mais? Eu não sei se este falastrão viveu em Nárnia, mas em Nárnia encontramos, ora, até em Nárnia encontramos violência e guerra quem diria. Mas os métodos mudaram é claro, isso é fato, tomemos por exemplo a metodologia nazista de extermínio humano em massa, que no inicio utilizava balas de armas para matar, mas que com o tempo mudou de instrumento, usando o gás para exterminar milhões e milhões de pessoas. 

Acredito que sim, porém com outros instrumentos tecnológicos, com estratégias sutilizadas, com métodos perversos de morte, de perseguição e de extermínio.  Mas e a mudança? Precisamos ou não dela?

Todos nós sabemos que o país precisa de mudanças, mudanças na educação, na saúde, na economia. Porém todos nós sabemos que a mudança não virá enquanto não nos conscientizarmos de que quem muda o mundo são são pessoas e não o mundo. Para ser sincero o mundo não está nem aí para nós, ele  não muda, portanto quem precisa mudar somos nós. Quando nós mudamos, o mundo muda, o país muda, nosso estado, nossa cidade, nosso bairro, nossa vizinhança, nossa casa muda.


MAS O QUE É MUDANÇA?


Mudança é alteração de um nível, modelo ou estado para um outro estado, mudança significa ‘movimento’, mudança é “devir” que implica  deslocamento contínuo.    Os neurocientistas que estudam o cérebro humano dizem que mudar é difícil.  Por que mudança implica em quebra de habitus. E habitus são capitais culturais que possuímos e que estão internalizados obedecendo aquilo que cientistas chamam de padrões de comportamento repetitivo e automático. Então sem querer estragar a sua festa, devo lhe dizer algo. Aliás, vamos refletir, todos nós somos seres racionais, certo? Mas nem todos usa a razão. Todos nós somos seres espirituais, mas nem todos são/estão espiritualizados. Todos nós possuímos estrutura físico-anatômica para carregar um cérebro, mas não é a razão que está no controle o tempo inteiro.

 DEPOIS DE FREUD


Na verdade, Freud conseguiu mostrar que não somos tão racionais assim, como propunha “Descartes, Kant e Sartre” que foram arautos do racionalismo e do iluminismo e da filosofia existencialista. Por exemplo, de acordo com Freud na maior parte do tempo não é a razão do Penso, Logo Existo (Cogito ergo Sum)  que  controlam as nossas vidas, mas sim o “Repito, Logo Existo”. Parece óbvio, mas isto está tão radicalmente embrenhado em nós que não questionamentos tarefas habituais e corriqueiras da vida, como levantar, escovar os dentes, tomar café, ir para a escola ou o trabalho, quem pensa, quem usa razão para isso? Fazemos isso quase que de modo automático. No entanto quando nos deparamos com a mudança o que é que nós fazemos? 

Ora  é a partir disso, que surgem as promessas de auto-engano. Do tipo, amanhã irei/vou mudar minha vida, amanhã começo com a minha dieta, amanhã vou começar a correr, amanhã vou começar a orar, meditar, amanhã será o meu último[...] amanhã e amanhã. E o inconsciente no comando, sugerindo, questionando, como um daimon  a razão. Ora, se o porão mental (inconsciente) rege hegemonicamente as coisas, onde fica o Eu? Eis a problemática, Freud dá um golpe
epistemológico na razão, (deixando exposta a terceira ferida narcísica[2] da humanidade) mas não em nossa ontologia. Isto é, somos seres, conscientes de saber, de conhecimento e de percepções. Com isto, o eu não está ausente, porém não é ele quem comanda em absoluto, na verdade existe intuição, instintividade  e sensitividade que também exercem controle sobre nossa psiquê, dando caminhos alteritários em nossas escolhas e decisões. Por exemplo, a razão nos informa que um determinado negócio é bom, porém uma voz que você não sabe chamar pelo nome começa dizer não faz este negócio e daí você entra em crise. Por que não há nada de errado a principio, porém o sentimento é mais forte que a razão, e aí, você diz, desculpa, vamos deixar para uma outra oportunidade, e então não faz o negócio. Esse exemplo, serve para muitas coisas na vida, desde lugares, viagens a pessoas que você evita durante a curta passagem nesse mundo. Hoje fala-se em psicologia do inconsciente utilizada por publicitários para levar pessoas a um consumo famélico, sendo a mídia de grande massa (televisão) a responsável por esse crime subliminar. No entanto, apenas provoco você leitor para pesquisar mais sobre o tema.


MUDANÇAS POSITIVAS 

Entre as mudanças positivas destaca-se a da higiene, para se ter uma ideia na Europa os cuidados com a limpeza era precários. Até mesmo o Palácio de Versalhes tinha a fama de ser imundo, habitado por moradores que não tinham a higiene. Sem saneamento básico, a população vivia em meio a sujeira e animais peçonhentos. E essa condição também foi uma das causadoras  da pandemia e peste bubônica, ou a peste negra, como ficou conhecida. 

BANHO FAMILIAR

Para ser considerado limpo, bastava lavar as mãos e o rosto. O banho de corpo inteiro era realizado, quando muito, uma vez por ano. Nessa ocasião, a família inteira se banhava no mesmo barril e com a mesma água - começando pelo pai, que era seguido pela mulher e pelos filhos, do mais velho ao mais novo.

Até mesmo Luís XIV fugia do banho, se lavando apenas quando o médico recomendava. Ele se limpava com um pano com água, álcool ou saliva.


ÁGUA DE DOENÇA

As casas de banho, muito comuns na Europa medieval, foram fechadas durante o predomínio do cristianismo por incentivar atos de luxúria. Na época, também foi difundido que a sujeira era benéfica à saúde - teoria aprovada pela comunidade médica, que acreditava que a água abria os poros e deixava os indivíduos vulneráveis à doença.


BAFO DE ONÇA

Sem escova de dente ou pasta, as pessoas costumavam esfregar dentes e gengivas com panos, utilizando misturas de ervas para amenizar o mau hálito. Enxaguar a boca com água gelada ajudava a liberar o muco, mastigar aipo ou casca de cidra cortava o bafo e almíscar e folhas de louro funcionavam como antisséptico.

LÁ VAI ÁGUA!

As necessidades fisiológicas feitas em penicos que ficavam nos quartos eram constantemente despejadas pelas janelas, podendo atingir qualquer desavisado que passasse no local na hora errada. A limpeza íntima era feitas com folhas de sabugo de milho - ou com a mão mesmo.


FAZ NO CHÃO MESMO

Quartos com banheiros, fossas e sistemas de drenagem não eram comuns até o século 19. As pessoas faziam suas necessidades em qualquer canto da rua, e, no Palácio de Versalhes, não era diferente: os corredores e os jardins eram verdadeiros depósitos de dejetos. 


PRODUZIDAS NO MAKE

Se hoje a indústria de cosméticos fatura milhões é graças às mulheres fedidas daquela época. No final do século 16, surge o pó de arroz, que servia para mascarar as imperfeições do rosto - incluindo feridas causadas pela falta de higiene. Esponjas perfumadas eram colocadas nas axilas e nas partes íntimas e pastas de ervas aplicadas sobre a pele para mascarar o mau cheiro.

Como se pode perceber muita coisa mudou na higiene de lá para cá, no entanto outra mudança bastante pertinente ocorreu em relação ao papel da mulher da sociedade. 

SENSIBILIDADE OLFATIVA NO SEXO E NA HIGIENE NO BRASIL 

https://img1.blogblog.com/img/video_object.png


 BEIJO NA BOCA

De acordo com a historiadora Mary Del Priori o beijo aparece nos manuais dos confessores com o nome de ósculo. Era expressamente proibido o beijo na boca, aliás o beijo na boca só passou a ser difundido depois da 1ª Guerra Mundial com a invenção da escova e a pasta de dente. Antes como diz Gregório de Matos em seus poemas era cheiro de bacalhau em cima e era cheiro de Bacalhau em baixo. 

SEXO NO BRASIL NO PERÍODO COLONIAL 

No séc. XVI ao XVII as casas eram de uma enorme precariedade, haviam muitas frestas, não havia privacidade, as portas não tinham fechaduras. Então quando as pessoas queriam fazer sexo elas iam para as matas, iam para os quintais elas se afastavam da casa, por que longe da casa, elas/eles não seriam percebidos em seus sussurros, gestos. E o que representava o corpo durante o período de colonização, uma vez que não se comparava com a nossa sociedade altamente higienizada. Naquela época a água era um produto extremamente raro, (hoje em alguns lugares também é) poucos se lavavam e os relacionamentos sexuais, um pouco do que a gente pode depreender eram rápidos e se limitavam a um erguer de saias e a um abaixar de calções, tudo muio rápido, sem nenhum erotismo, não havia uma busca de maior prazer, na descoberta do corpo do outro. 
O sexo era uma coisa muito sucinta, chamada de trick-trick pelo poeta baiano Gregório de Matos (boca do inferno).

É necessário lembrar como afirma: (SCHAUN; SCHWARTZ):

que o erotismo relaciona-se com o explicito, desenvolvido e preciso, e tem intenção meramente exibicionista. Já a sensualidade não possui a ligação de mostrar claramente, dando ao expectador somente o vislumbre. O erotismo apela sempre para o sentido consciente, não permitindo possíveis dúvidas; a sensualidade encobre a vulgaridade disseminada no erotismo, convida à fantasia.  


De acordo com Morin:

Na china o erotismo ainda é inimaginável, isto é, recalcado fora das imagens, no segredo das condutas privadas. O velado é mais interessante e sedutor do que a nudez total. Um presente carrega seu mistério enquanto sua embalagem não for violada. Ao abri-lo imediatamente a aura que nos atraía se desfaz e a magia que antes parecia palpável, desaparece (1997, p. 119) 


É claro que estamos falando de culturas diametralmente alteritárias, mas a questão é que no Brasil colônia a nudez antes visível dos indígenas foi coberta não com fins de sedução, pelo contrário Paulo Brado diz que o processo de povoação do Brasil, se caracterizou pela ausência de regras sociais, em uma civilização considerada selvagem. A presença dos índios somada à natureza nunca vista até então pelo Europeu alimentou à fantasia de um paraíso na terra que por sua vez colaborou para posturas libertinas e uma concepção de que aqui tudo se podia. 

O antropólogo belga, Pierre Alphonse Mabilde chegou a afirmar que as índias se deitavam com os brancos por interesse, com os índios por dever e com os negros por prazer quando estes eram trazidos pelos negreiros. 

Para se ter uma ideia, em 1660 o teólogo holandês Gasper Von Barleus, cunhou a expressão: Rerum per octennium in Brasilien, "ao sul da linha equacional não se peca", que acabou se transformando na famosa frase: "Não existe pecado do lado de baixo do Equador”.  Como o Brasil ainda não havia se cristianizado como um todo, o nu ainda era uma questão a ser tratada, a nudez necessitava ser ocultada, abrigada e escondida da libertinage europeia.  O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro fala-nos sobre o "cunhadismo[3]", já o sociólogo Gilberto Freire em Casa grande e Senzala mostra-nos como as relações eram marcadas por um patriarcalismo estritamente denso de masculinização do homem como sujeito ativo, viril e potente, que iniciava precocemente em sua vida sexual, geralmente com escravas.
Por este motivo, não apenas no Brasil, mas nas Américas como um todo os filhos ilegítimos, filhos de Branco com outras raças, foram uma das principais causas do crescimento demográfico da América Latina e do Caribe.  Numa paróquia de Lima, no Peru, no século XVI, 40 % dos batizados eram ilegítimos. Num registro paroquial em Santiago, no Chile, conta que os filhos ilegítimos eram distribuídos da seguinte forma: Mestiços - 36%; Indígenas - 31 %; Brancos - 20%.  p. 333

De volta ao Brasil, por aqui o homem era visto como a figura solar, o elemento quente na parceria e a mulher como diz Mary del Priori sempre fria, vitima do seu ciclo lunar e menarquico que a afastava das atividades por que se acreditava nessa época que a mulher menstruada podia azedar o alimento, coalhar o leite e azinhavrar o ferro, portanto havia uma série de interditos que impediam a aproximação da mulher menstruada e que faziam dela um ser inferior e destituído de qualquer interesse na relação sexual e o prazer feminino foi ignorado.

MUDANÇAS NO AMOR

Hodiernamente vivemos em uma sociedade que faz do amor uma obsessão, então somos quase obrigados a sermos felizes, a amar alguém e acabamos banalizando esse sentimento chamado amor uma vez que amamos o nosso parceiro, parceira, mas amamos também o nosso desodorante, o carro do ano, também amamos o  molho de tomate na massa então essas banalizações mostram que essa banalização do sentimento do amor e as formas de expressar esse sentimento são culturalmente construídos. O amor, embora seja essa coisa incrivelmente descrita pelos poetas e pelo cinema, pelos escritores e pelos apaixonados, ele pode ser estudado num viés histórico através das formas pelas quais ele se manifestou através dos gestos e das palavras. 

É importante lembrar-lhes que essa necessidade de amor é precocemente recente, coisa do século XX e XXI. Se olharmos lá para o séc. XVI ou se abrirmos um dicionário os portugueses aparecem no final do Séc. XVIII nós vamos perceber que essa palavra amor não eram utilizadas nem expressadas pelos homens as mulheres ou vice-versa, mas sim a Deus. No final do séc. XVIII era como se nós só pudessemos  amar Deus, então essa palavra não era tão banalizada como o é em nossos dias.

Portanto, é necessário dizer que esse “amor” entre homem e mulher que hoje conhecemos teve que percorrer uma longa aventura.

No séc. XVI logo depois da realização do concílio de Trento em 1535 a Igreja católica estava especialmente preocupada com a questão do casamento que já havia institucionalizado, tornado em sacramento, ainda não existia bem esse ritual que nós vemos nos dias de hoje, mas começa aquela coisa do pai levar a moça até o noive, em geral receber o dote constituído pelas mais diversas riqueza.

Enfim, nessa época a preocupação da igreja não estava tanto na questão ritual, mas sim em tornar esse sacramento que era tão valioso para a organização da sociedade e das relações da sociedade com estado, em um sacramento despossuído, despido de toda ou qualquer aparência erótica ou sexualizada. A grande preocupação da igreja era tornar o encontro dos corpos no casamento algo que fosse extremamente higiênico praticamente cirúrgico, uma vez que o sexo seria responsável por macular essa coisa tão maravilhosa que era o casamento. Então por um lado a igreja se preocupa muito em consolidar a imagem do casamento como matrimônio, mas por outro ela se preocupa em esvaziar isso que hoje é tão valorizada no matrimônio que é o  encontro sexual, é o encontro dos corpos.

E como é que ela vai fazer isso? É muito interessante por que nessa mesma época a imprensa havia sido descoberta e são publicados os primeiros livros e curiosamente em Portugal, por exemplo, o primeiro livro a ser publicado é o Manual do Confessor. 

O confessionário ele é criado também pelo Concílio de Trento, por que antes ele se dava com o Padre de pé e o confidente ajoelhado na frente do Padre, o que muitas vezes em se tratando de uma mulher causava um certo mal estar dentro da igreja, isso quando não se chegava as vias de fato. Então inventaram esse confessionário como nós conhecemos hoje essa caixa de madeira, que tem por objetivo separar o confessor dos confidentes.
E os manuais de confessor eram livros que os padres deveriam ler ensinando os casais casados a como se comportar dentro do casamento. E os manuais de confessor vão ser de fato os instrumentos mais eficientes para despojar o casamento de todo e qualquer conotação erótico. Para se ter uma ideia era proibido pelos manuais de confessores, por exemplo, que os casais trocassem ósculos, o popular beijo, o beijo só era possível na testa de uma criança, daí sim ele estaria desprovido de qualquer ideia de pecado.

Eram proibidos pelos manuais de confessores que homens e mulheres tivessem tocamentos desonestos esse era o nome que se dava aquilo que hoje se encontra em qualquer revista que a gente vê nas bancas de jornais a como melhorar as tais preliminares, naquela época isso era completamente proibido.
Era completamente proibido o tamanho da família. Nessa época e antes da invenção da camisinha que só vai ser difundida na Europa graças aos Exércitos de Napoleão. Napoleão  venceu várias guerras inclusive essa, a do controle de natalidade dentro das famílias. Por que foram os soldados de Napoleão que levaram as camisinhas em forma de bexiga pela primeira vez por toda Europa.

Então nessa época o controle era feito através do coito interrompido, o próprio nome já explica do que se trata, e isso era um pecado gravíssimo considerado pela Igreja por que o fundamental no casamento era que as pessoas tivessem mais e mais filhos. Então um controle muito exacerbado da sexualidade pela igreja e também pela medicina que nessa época através dos seus tratados dos mais variados vai também mapeando os corpos dos homens e das mulheres, resolve dar suporte a 
igreja e dizer que toda forma de paixão (essa palavra que passa a frequentar o vocabulário médico) era uma coisa extremamente comprometedoras e que pode levar as mais terríveis doenças. Pessoas apaixonadas podiam sofrer de câncer a hemorroidas, asfixias, dor de cabeças, etc...

Acreditava-se por exemplo que as mulheres apaixonadas podiam morrer sufocadas, por que os médicos entre o século XVI e XVII consideravam que o útero da mulher no interior do corpo era o que eles chamavam de animal errabundo ou seja uma coisa que conseguia se locomover dentro do corpo da mulher e que uma vez que esse útero não estivesse alimentado por um filho anualmente esse útero poderia subir para a garganta da mulher e sufocá-la e isso no século XIX vai ser chamado pela psicanalise de histeria. É interessante que igreja e a medicina sempre de mãos dadas na tentativa de controlara as paixões, e isso sem contar as miríades de sermões e padres pregadores que sempre consideraram que as paixões eram o oceano tenebroso no qual os corações dos homens e das mulheres naufragavam. Então sempre uma desconfiança muito grande do amor dentro do casamento, uma desconfiança muito grande desse encontro que poderia ser erotizado entre homens e mulheres portanto uma perseguição a toda forma de sexualidade que faria do casamento esse encontro dos corpos tal qual conhecemos em nossos dias.

E como se sustentava um matrimônio sob controle da igreja e destituído de sexualidade?

Simples, com toda essa repressão no casamento realizada pela igreja, fez nascer a dupla moral. Enquanto em casa os homens tinham uma mulher procriadora e mãe dos filhos, rainha do lar, lá fora na rua procuram as concubinas, as amásias que davam a paixão, o amor erotizado. 

AMOR LÍQUIDO NA PÓS-MODERNIDADE




Curiosamente ficou faltando mudanças na Religião (continuação...) 



REFERÊNCIAS:

Café Filosófico: O Casamento entre o Amor e o Sexo - O cuidado é feminino - Mary Del Priore. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=PvmTr20dSXE > Acesso em: 12 Jan. 17 

HIRATA, Gisele; ROSINI, Daniel; SANCHES, Diego. Como era a higiene no Palácio de Versalhes no século 17? Mundo Estranho. São paulo: Edição 117, Nov. 2011. p. 40, 41

MORIN, Edgar. Cultura de massa no século XX. Rio de Janeiro: Forense Vol. 1 - Neurose, 1997. p. 11

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: evolução e o sentido do Brasil. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 81-83

RICHARD PARKER. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Parker> Acesso em: 11Jan. 17.
SCHAUN, Angela;  SCHWARTZ, Rosana. O corpo feminino na publicidade: aspectos históricos e atuais. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/alcar/jornal-da-alcar-no-3-agosto-de-2012/O%20corpo%20feminino%20na%20publicidade.pdf > Acesso em: 11 Jan. 17.


Mary del Priore: Sexualidade e Erotismo na História do Brasil. Disponível em:                < https://www.youtube.com/watch?v=QD9tJMuFNfE> Acesso em: 12 Jan. 17




[1] Teólogo (Facasc); Cientista da Religião (USJ), Professor de Teologia (FMC) e Pastor na Igreja AD. Mais de Cristo em Florianópolis.

[2]  De acordo com Freud a psicanálise foi responsável pela terceira ferida narcísica na humanidade, a primeira foi cosmológica provocada por Nicolau Copérnico com sua teoria heliocêntrica, a segunda ferida foi biológica provocada por Darwin ao colocar o homem no centro da criação e apresentar o seu ancestral comum, os chipanzés, e o terceiro golpe foi a descoberta do inconsciente.

Copérnico, Darwin e Freud desferiram golpes dolorosos na humanidade com a teoria heliocêntrica do Sistema Solar, a teoria da evolução das espécies e a Psicanálise. Disponível em: <http://psicoativo.com/2016/11/as-3-feridas-narcisicas-da-humanidade-copernico-darwin-e-freud.html > Acesso em: 12 Jan. 17 


[3]  O cunhadismo- A instituição social que possibilitou a formação do povo brasileiro [...] velho uso indígena de incorporar estranhos à sua comunidade. Consistia em lhes dar uma moça índia como esposa. Assim que ele assumisse, estabelecia, automaticamente, mil laços que o aparentavam com todos membros do grupo. Aceitando a moça, o estranho passava a ter nela sua "temericó". Nesse caso, esses termos de consanguinidade ou de afinidade passavam a classificar todo o grupo como pessoas transáveis ou incestuosas. Com os primeiros devia ter relações evitativas, como convém no trato com sogros, por exemplo. Relações sexualmente abertas, gozosas, no caso dos chamados cunhados; quanto à geração de genros e noras ocorria o mesmo. Há amplo registro dessa prática entre os cronistas e também avaliações de sua importância devidas a Efraim Cardoso (1959), do Paraguai, e Jaime Cortesão (1964), para o Brasil. A documentação espanhola, mais rica nisso, revela que em Assunção havia europeus com mais de oitenta temericó. Com base no cunhadismo se estabelecem os criatórios de gente mestiça nos focos onde náufragos e degredados se assentaram. (RIBEIRO, 1995, p. 80-83)








Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ALIMENTAÇÃO DOS TEMPOS BÍBLICOS

RESENHA DO FILME TERRA VERMELHA

RELIGIOSIDADE NA ERA PALEOLÍTICA/NEOLÍTICA