GULA E O CONSUMISMO



O homem é aquilo que come. Feuerbach

Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Se pudéssemos traduzir essa passagem para uma compreensão exata, diríamos assim:“O pão natural sustenta o corpo, mas o pão que Deus dá alimenta o nosso espirito”.                  Paulo Mazarem

Não seria nenhum exagero dizer que as escrituras apresentam um cardápio a la carte incomparável. Nela encontramos colocíntidas com farinha, sopa de lentilhas, salada e frutas, bolo, ovelhas com Passas e figos, Gafanhotos e mel Silvestre e um peixe assado na brasa que é de dar água na boca.
Se existe uma coisa a se destacar na cultura religiosa de todos os povos é a forma como o alimento se mostra não só como elemento de identificação cultural de um etnia, mas também como signo que caracteriza uma tradição específica e local. Estudiosos de humanas tem um olhar voltado para a sociologia da alimentação e o modo como os indivíduos nela inserido se relacionam e se percebem no que diz respeito ao ato de se alimentar.
Quem não gosta de comer? Alguém já disse que toda existência humana decorre do binômio Estômago e Sexo. Já outros insistem que a fome e o amor movem o mundo. (Schiller). O fato é que existem pessoas que só pensam em comer e existem pessoas (Dona Bela) que só pensam naquilo. Destarte que o excesso de ambos podem acarretar sérios problemas a saúde fisica, psicológica e espiritual de uma pessoa. De modo que quando incorremos no excesso de sexo temos a luxúria e quando excedemo-nos em relação a alimentação temos a gula.
No entanto sabemos que a gula é um vício que prejudica o corpo trazendo uma série de complicação de ordem psicológica, física e espiritual como já dito.
Mas, por que o alimento está em destaque nessa reflexão? Em suma o premissa é destacar o propósito da alimentação e não o seu fim último o ventre. Aliás as escrituras neotestamentárias destacam que a gula é um ídolo. O apóstolo Paulo escreve uma carta aos irmão filipenses dizendo o seguinte: cujo fim é a perdição; cujo deus é o ventre; e cuja glória assenta no que é vergonhoso; os quais só cuidam das coisas terrenas. (Filipenses 3.19)

 Enfim, quero apontar o propósito e o poder que a alimentação possuem,  a seguir:

O SER HUMANO SE ALIMENTA POR MUITOS MOTIVOS DE:


1. NECESSIDADE do corpo em produzir energias, isto está vinculado a sobrevivência e se ajusta muito bem ao dito:  “comer para viver”. Essa frase tem um impacto muito significativo por que muita gente vive o reverso dela. Ao invés de comer para viver, existem pessoas que vivem para comer. (focalização alimentar, fixação compulsiva).

2.  COMUNHÃO[1]- É aquele momento em que nos reunimos com pessoas que amamos e unimos o útil com o agradável.

3.  OSTENTAÇÃO – Comidas exóticas-Existem alimentos que são verdadeiras iguarias, pratos finos que custam o olho da cara.

4.    GLUTONARIA – (Ansiedade, nostalgia, tristeza, disfunções psíquicas, etc...)


Os resultados desse último item dão conta de nos mostrar que nunca estivemos tão acima do peso, (obesos). Hodiernamente há 1, 5 bilhão e meio de obesos no mundo, contra 925 milhões de desnutridos, segundo o relatório da Cruz vermelha de 2011.  O alarmante dessas estatísticas é que são dois extremos que revelam disparidades abissais e assustadoras. De um lado pessoas que não se alimentam adequadamente tendo condições para fazê-lo e de outro pessoas em extrema inópia que morrem devido a circunstância aterradora que os cercam. Dois extremos radicais, de um lado a compulsão pelo alimento e do outro a ausência do alimento. Tanto na obesidade quanto na desnutrição destacam-se a ausência de cuidados [2] nutrológicos.

Todavia quando fala-se em consumo excessivo de alimentos, destacam-se três tipos de gula: crônica, episódica e passageira. Apenas estratificarei sem desdobrar aqui para o conhecimento daqueles que desejam aprofundar-se no tema.


Que a tua alimentação seja o teu remédio. Hipócrates.


O filósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804 – 1872) Em sua obra “Pensamentos sobre Morte e Imortalidade” resume o homem no conhecido ditado: “O homem é aquilo que come”. 
Essa definição de Feuerbach em sentido materialista é assumida como estritamente bíblica e cristã pelo teólogo ortodoxo Alexandre Schmemann (1921-1983), cujo estudo centrou-se na Liturgia: “Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,54). Se a tentação de comer o fruto da árvore da Vida trouxe a morte, o comer da Carne e Sangue do Filho de Deus traz a vida.

MAS O QUE É A GULA?
De acordo com Tomás de Aquino, a gula é a desordem de um desejo natural, qual seja, o de comer e beber.
É importante destacar a distinção entre o guloso e o glutão.
Alguns especialistas dizem que a gula muitas vezes invisibiliza ou pelo menos tenta ocultar uma série de vazios e frustrações enfrentadas pelo guloso. É importante destacar que até a Idade média a relação com o alimento era uma, depois da revolução francesa a relação passou a ser diferente, pois foi através de um juiz da suprema corte francesa Brillat-Savarin (1775-1826) que a ideia de gastronia começou a revelar um viés de arte da culinária, reunindo o paladar à estética.
Não sabemos até a gastronomia influenciou a ideia de que nem tudo que é alimento é comida, mas toda comida é alimento.

Dia 26 de janeiro é o Dia da Gula. Ela geralmente é associada ao impulso de comer demais, mas este termo também pode ser aplicado a outras ações cometidas de maneira voraz e excessiva.
O impulso descontrolado pode vir sob a forma de consumismo, de ambição ou até mesmo como o vício pelo trabalho. Um deslize aqui e outro acolá são compreensíveis.
Mas é preciso atenção para se certificar de que a gula não está tomando conta da sua vida. "Quando a vida social começa a ser afetada, é preciso identificar de onde vêm esses anseios e buscar alternativas para lidar com isso da melhor maneira possível". 

GULA INTELECTUAL
"Existem pessoas que gostam de estudar e obter conhecimentos. Até aí tudo bem. O problema começa quando nada satisfaz, e a pessoa acha que nunca sabe o bastante", explica a psicóloga Marina Vasconcellos, psicóloga e especialista em terapia familiar e de casal pela UNIFESP.
Outra situação problemática ocorre quando essa atividade começa a influenciar outras áreas da vida. Por exemplo, se você deixa de sair para ficar em casa estudando, ou abre mão de outras atividades prazerosas, é preciso atenção. Salvo em situações em que o foco é esse, como no período pré-vestibular ou concursos. Mas passadas as provas, é muito importante relaxar.
Como uma saída, é importante buscar alternativas. Vá à academia, ao clube, a restaurantes e bares. Só não vale ir à livraria ou à biblioteca. 

GULA POR PODER

Não delegar funções, ser moralista em excesso e até mesmo machista podem ser sinais do desejo desmedido por poder. Segundo Marina, essas situações podem refletir carências, que muitas vezes têm sua origem na infância, e ainda ocultar uma característica da sua personalidade. "Muitas vezes a pessoa tem um lado extremamente frágil, que fica escondido sob a carapaça do poder", explica a especialista.
O primeiro passo é identificar se isso acontece com você, através de conselhos, e até mesmo brincadeiras, de amigos e colegas. Ou mesmo observando suas próprias atitudes. Se isso acontecer com você, busque ajuda de um profissional. 

GULA POR EXERCÍCIOS

Vivemos numa sociedade que impõe o culto à imagem e ao corpo. Muitos vêm o esporte como uma forma de alcançar essa meta. A vontade incontrolável de competir, e ganhar, também pode ser a causa dessa gula.
"Quando a prática de exercícios físicos, que pode ser muito saudável, começa a gerar prejuízos físicos, emocionais e sociais, ela pode estar virando uma compulsão", explica Tiago. Se você não respeita o tempo de descanso entre os exercícios ou, com frequência, deixa de fazer outras atividades para malhar, tente distribuir melhor seu tempo e buscar outras formas de lazer.

GULA POR DINHEIRO

Esse desejo descontrolado têm algumas características, como a compra sem um propósito, apenas pelo fato de possuir. Ou ainda pelo acúmulo de dinheiro, que nunca é bastante, e sem um objetivo final. Os jogos de aposta, a preocupação excessiva com marcas e grifes, e o acúmulo de bens também são sinais desse excesso.
A partir do momento em que o deseja não é suprido, estados de intensa tristeza e ansiedade podem ser gerados. Abuso ou falta de alimentação, insônia, fadiga e alteração de humor podem ser sintomas dessas condições", explica Tiago.
Para melhorar essa situação, tente colocar limites para os seus gastos ou, se notar que a ambição é desmedida, procure ajuda profissional.

GULA POR COMPRAS

O consumismo acontece quando extrapolamos o limite do dinheiro. Além das dívidas, essa condição pode gerar intensa frustração. Tiago explica que pessoas que pedem dinheiro emprestado com frequência, fazem hora extra em excesso ou buscam fontes alternativas de renda, sem real necessidade, podem estar sofrendo com essa compulsão.
"Se você compra demais é sinal de que pode estar faltando algo em outra área da vida, há uma carência", explica o especialista. É importante olhar para si e compreender essas faltas. Psicoterapia, yoga, meditação e outras terapias que colaborem para essa autorreflexão podem ajudar.

GULA PELO TRABALHO

Hoje em dia é muito comum ser workaholic, como é chamada a pessoa que é viciada em trabalho. O ofício ocupa espaço de outras áreas da vida da pessoa. É preciso identificar se o excesso de trabalho tem motivo, por demanda financeira, ou não. Ficar, com frequência, até mais tarde trabalhando, levar trabalho para casa e não conseguir relaxar são alguns sinais desse transtorno. "É importante estabelecer períodos de trabalho, de lazer e de atividade física, que pode ajudar muito nesses casos", recomenda Tiago. 


GULA POR ATENÇÃO

Marina Vasconcellos explica que a carência excessiva na vida adulta e a gula por atenção pode ter suas origens na infância, se faltou um olhar ou um elogio ou uma preocupação dos pais, por exemplo. Outras vezes esse sentimento vem de uma solidão momentânea, que é normal e costuma ser mais brando.
As pessoas muito carentes demandam ao exagero quem está próximo. A consequência é que os amigos se afastam, as relações se deterioram e a individualidade é perdida. O acompanhamento psicológico é muito importante para compreender essas carências. A partir daí se inicia um processo de individualização e a pessoa se torna mais autossuficiente.


CONHEÇA OS DIFERENTES TIPOS DE GULA EMOCIONAL

O desejo exagerado por dinheiro, trabalho ou atenção podem atrapalhar sua saúde emocional.
O homem é o que come também espiritualmente. A Escritura judaica e cristã é rica no chamar o Livro e a Palavra de comida. Jeremias: “Quando encontrei tuas palavras, alimentei-me; elas se tornaram para mim uma delícia e a alegria do coração” (15,16). Ezequiel: ‘Abre a boca e come o que te dou’.
Eu olhei e vi uma mão estendida para mim, e nela um livro enrolado. … Ele me disse: ‘Filho do homem, come o que tens diante de ti! Come este rolo e vai falar à casa de Israel’” (2, 8; 3, 1).  Apocalipse:  “Eu fui até o anjo e pedi que me entregasse o livrinho. Ele me falou: ‘Pega e devora. Será amargo no estômago, mas na tua boca será doce como o mel’” (10,9). João Crisóstomo afirma que na Palavra comemos a Carne e o Sangue do Senhor!


 REFERÊNCIAS:
PAGAN, M. Conheça os diferentes tipos de gula emocional. Disponível em: < http://www.minhavida.com.br/bem-estar/galerias/14622-conheca-os-diferentes-tipos-de-gula-emocional/7 > Acesso 13 Abr. 16
BESEN, J. A. O homem é aquilo que ele come. Disponível em: < https://pebesen.wordpress.com/2010/11/14/o-homem-e-aquilo-que-come/  > Acesso 31 Jan. 17
OLIVEIRA, Willian Kaizer de. A gastronomia do Sagrado. Subterrâneo Religioso: reflexões a partir do pensamento de Oneide Bobsin. /Orgs. Helio Aparecido Teixeira, Iuri Andréas Reblin, Nivia Ivette Núnez de la Paz. São Leopoldo: Karywa, 2016. p. 175
STEVEN, Top. Refeições especiais na Bíblia. 1ª edição: agosto, 2015.






[1] Nicu Steinhardt (1912-1989), judeu romeno convertido, lembra que o banquete é o único lugar em que o homem se alegra com a alegria alheia (Diário da Felicidade, p. 207).

[2] A nutrologia é a especialidade médica que estuda, pesquisa e avalia os benefícios e malefícios causados pela ingestão dos nutrientes, aplicando este conhecimento para a avaliação de nossas necessidades orgânicas, visando a manutenção da saúde e redução de risco de doenças, assim como o tratamento das manifestações de deficiência ou excesso. O que é Nutrologia? Disponível em < http://abran.org.br/para-o-publico/nutrologia/o-que-e-nutrologia/ > Acesso: 13 Abr. 16






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