Apocalipse Ontocentrizado

 

Em nossos últimos encontros destacamos a importância de se (re)ssignificar as interpretações que foram feitas até o presente momento do apocalipse, como: idealista, historicista, preterista e futurista e potencializá-las por uma perspectiva cristo-ontológica com dimensão profética, cósmica e escatológica. 

Nesse sentido entendemos que (re)orientar os seguidores de Jesus para uma leitura cristocêntrica é não apenas elementar, mas essencial para se obter a chave hermenêutica que destravará as portas deste livro – o livro do Apocalipse – para uma compreensão que dialogue com o espírito no qual este livro foi escrito. 

 

Relembramos os senhores que o cap. 1. 1 diz que este livro é uma [...]

 

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu.

 

Observe que o livro do Apocalipse, não começa no tempo, mas no ser. Iesú Cristú ποκάλυψις - Apokálispsis Iesú Cristú = ποκάλυψις ησο Χριστο, isto é, “revelação de Jesus Cristo”. Vejam, é a revelação que procede de Jesus, porque Ele é o princípio revelacional do real.

Por isso, Apocalipse não é, primariamente, um livro sobre o futuro. É um livro ontológico. Aqui há um eco direto de Jo 1. 1, uma vez que Cristo não interpreta a história; Ele a sustenta. Vejam que curioso, porque se partimos de uma perspectiva cristo-ontológica para interpretar não só Apocalipse, mas a escritura, nos esbarramos nos limites da língua e das traduções. 

Todos sabem que a Bíblia foi escrita em três línguas: hebraico, (fragmentos de Aramaico) e grego Koinê. Logo, se Jesus é o SER que sustenta a história humana. Todas às vezes que lemos no grego, por exemplo, João 1. 1[1] (En archē[2]ēn ho Lógos = En ar-RÊ i ÊN rô LÓ-gos) nos esbarramos na limitação que a língua portuguesa a partir de inúmeras traduções encontrou para falar de Jesus. 

A escritura diz em Jo. 1. 1 que no: 

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus (Kai ho Lógos ēn pròs tòn Theón = Kái rô LÓ-gos ÊN prós tôn The-ÓN), e o Verbo era Deus (Kai Theòs ēn ho Lógos = Kái The-ÓS ÊN rô LÓ-gos). 

Olha que questão interessante para pensarmos. A escritura não diz que: “No princípio É o verbo ...” pois em português, o 

         •        “é” → prenderia o Logos ao presente do leitor. 

Também não diz ...

         •        “foi” → pois, indicaria algo concluído.

Muito menos...

         •        “estava sendo” → porque soaria artificial e confuso

Mas aparece

·              O verbo era Deus.

Por que a final de contas? Bem, os tradutores escolhem, o verbo “era” por necessidade linguística, não por afirmação teológica. E aqui vem uma observação mais do que pertinente. Porque em nossa língua o verbo, “era” costuma sugerir: algo que existiu, mas que necessariamente não existe mais, pois costuma carregar uma ideia implícita de passado encerrado:

         •        “Ele era professor” → talvez não seja mais

         •        “Aquilo era assim” → agora mudou

Se aplicássemos esse valor semântico da nossa língua diretamente ao texto de João, chegaríamos a um absurdo teológico do tipo: “Deus era, mas não é mais.”  Sem dúvidas, essa leitura estaria teológica e gramaticalmente comprometida e equivocada à luz do texto grego joanino.

E aqui entra o limite da língua e da linguagem humana (teologia apofática[3] e catafática[4]), uma vez que o português não possui um tempo verbal capaz de expressar esse tipo de imperfeito ontológico. Assim, diante dessa limitação, os tradutores escolhem o verbo “era” não por afirmação teológica. por necessidade linguística[5],

O ponto cristológico decisivo aqui é inequívoco, e nisso o cristianismo se distingue radicalmente de outras tradições místicas. Por isso podemos dizer que Deus é indizível (apofático) em sua essência, mas comunicável (catafático) em sua revelação.  E João resolve essa tensão a partir de seu evangelho quando afirma que: “O Logos que ninguém pode compreender plenamente se fez carne.” 

Isso é crucial para entendermos muitas coisas, entre elas a verdade de que Deus não é definido por uma língua; por um idioma. Na verdade, a língua e a linguagem humana é que tenta, imperfeitamente, falar de Deus. É por isso que nós não podemos ler “era” como se João estivesse dizendo que o Verbo deixou de ser. Isso seria impor ao grego uma semântica que pertence apenas ao português. 

O que João faz é tirar o Verbo do tempo, não para aprisioná-lo nele e sim transcendentalizá-lo. E o faz, se negar o ser, mostrando que um SER antecede todo tempo verbal possível e esse ser é JESUS. 

Portanto, se lêssemos “era” como passado cronológico comum, o texto: destruiria a cristologia, negaria a eternidade do Logos, ou seja, a sua divindade, e entraria em contradição com o próprio Evangelho. Mas isso não acontece, porque: o problema não está no texto bíblico, mas nos limites da língua portuguesa.

Portanto, o imperfeito ontológico em grego não define tempo encerrado, mas estado contínuo no passado, sem indicar início nem fim. 

 

Se pudéssemos refrasear o texto bíblico, leríamos mais ou menos assim:

 

“quando o princípio começou, o Verbo já estava sendo.”

 

Só que nesse trilho linguístico teríamos um outro problema, a insinuação de um processo inacabado, como se Deus estivesse “em formação”. E não é isso, o que João afirma no evangelho.

Ele não diz que o Verbo está se tornando Deus ou evoluindo. Jesus não está em processo de formação ontológica. Esse é o motivo pelo qual os tradutores, trazem o verbo

Ou seja, João quando diz: O Verbo era, ele não está descrevendo um evento, mas um estado permanente que antecede o tempo.

Enfim, por que a Bíblia diz que “o Verbo era Deus” afinal? Porque João não está falando de tempo, ele está falando de ser. O problema não está no verbo. O problema está na forma como nós lemos.

Quando a gente lê a palavra “era”, em português, quase automaticamente pensa em algo que ficou no passado. Algo que existiu, mas que talvez não exista mais. Só que João não escreve em português e João não pensa Deus em categorias cronológicas.

 

No grego em que o Evangelho foi escrito, o verbo usado ali — ν — não descreve algo que começou em algum momento, nem algo que terminou em outro. Ele descreve um estado permanente de ser. Um ser contínuo. Um ser que não depende do tempo.

 

Enfim ...

“Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer, e que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João.” (Apocalipse 1.1)

 

A pergunta é direta: que anjo é esse?

 

O livro do Apocalipse começa de uma forma muito cuidadosa e, ao mesmo tempo, profundamente reveladora. Ele diz que essa é a revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer, e que Ele enviou por intermédio do seu anjo ao seu servo João.

 

Aqui surge uma pergunta simples, mas carregada de significado:

que anjo é esse?

 

O texto não nos dá um nome. E isso não é descuido. É intencional. O Apocalipse não está interessado em criar curiosidade sobre a identidade do mensageiro, mas em deixar absolutamente claro o fluxo da revelação. A mensagem nasce em Deus, passa por Cristo, é comunicada por um anjo e chega a João. O anjo não é a fonte, não é o centro e não é o fim da revelação. Ele é instrumento, não origem.

 

Isso é fundamental, porque nos protege de dois erros muito comuns: supervalorizar o mensageiro ou deslocar o foco da mensagem. O anjo aparece como servidor da revelação, não como protagonista dela. Ele comunica aquilo que não lhe pertence. Ele transmite o que recebeu. Ele aponta para algo maior do que ele mesmo.

 

Ao longo do próprio Apocalipse, esse mesmo anjo aparece explicando visões, conduzindo João e até corrigindo seus gestos. Em determinado momento, João se impressiona tanto que tenta adorá-lo. E a resposta do anjo é imediata e firme: “Não faças isso. Sou conservo teu… adora a Deus.” Isso encerra qualquer tentativa de transformar o mensageiro em objeto de culto.

 

Do ponto de vista espiritual e ontológico, isso nos ensina algo precioso: Deus se revela, mas não se confunde com os meios pelos quais se revela. O anjo pertence à ordem criada, atua no tempo e serve à história. A revelação, porém, procede do Eterno. O anjo não medeia o ser de Deus; ele apenas medeia a comunicação da mensagem.

Essa estrutura da revelação também nos ensina humildade. Deus poderia falar diretamente a João, mas escolhe envolver servos, mensageiros, instrumentos. Isso não diminui a glória de Deus; pelo contrário, revela sua soberania. Ele governa tanto o céu quanto a terra, tanto o visível quanto o invisível, e usa toda a sua criação para cumprir seus propósitos.

No fim das contas, o Apocalipse já começa nos ensinando algo essencial para a vida cristã: não confunda o mensageiro com a mensagem, nem o instrumento com a fonte. Anjos, profetas, apóstolos e pregadores são servos. A revelação é de Deus. O centro é Cristo.

E isso nos chama a uma postura correta diante de Deus: reverência sem idolatria, admiração sem desvio, escuta atenta sem perder o foco. Porque, no Reino, até os anjos dizem: “Adora a Deus.”

Essa é a chave para ler o Apocalipse — e para viver a fé com maturidade: reconhecer os meios, sem jamais perder de vista a origem.

 

Pr. Paulo Mazarem                                                                                             

Escola de Sabedoria         

Mais de Cristo            

07 Fevereiro 2026.



[1] ν ρχ ν  Λόγος, κα  Λόγος ν πρς τν Θεόν, κα Θες ν  Λόγος.

[2] Para os pré-socráticos, ρχή é, antes de tudo, o fundamento último da realidade e aquilo de onde tudo procede e pelo qual tudo se explica. João escreve nesse mesmo horizonte de perguntas, mas sua resposta é radicalmente distinta. Ele não aponta para um elemento físico, nem para uma abstração metafísica, nem para uma necessidade lógica impessoal. Ele afirma: o princípio é o Logos. E mais do que isso: o Logos não é apenas o princípio explicativo do mundo, mas o princípio criativo e sustentador de todas as coisas.        O que a filosofia buscou como fundamento impessoal, João anuncia como realidade pessoal. Nesse sentido, há continuidade e ruptura. Continuidade, porque João reconhece a legitimidade da pergunta ontológica grega: o que sustenta o ser? Ruptura, porque ele afirma algo que nenhum pré-socrático ousou afirmar: o fundamento do ser está em relação com Deus (“πρς τν Θεόν”) e se fez carne (“σρξ γένετο”). O Logos joanino não é apenas razão cósmica, como em Heráclito, nem puro Ser imóvel, como em Parmênides. Ele é eterno e relacional, imutável em essência e histórico em ação. Ao dizer que “todas as coisas vieram a ser por meio dele”, João desloca definitivamente a discussão. Não se trata mais de identificar de que o mundo é feito, mas em quem o mundo subsiste. A água de Tales, o fogo de Heráclito, o ápeiron de Anaximandro e o Ser de Parmênides aparecem, à luz do prólogo joanino, como tentativas parciais de nomear aquilo que agora se revela plenamente. João não nega essas buscas; ele as ultrapassa. O passo decisivo está na encarnação. O Logos, que poderia permanecer apenas como princípio metafísico, entra na história. Aqui o pensamento grego encontra seu limite: nenhum sistema filosófico concebeu seriamente que o princípio ontológico do universo pudesse assumir carne, linguagem, tempo e sofrimento. João afirma exatamente isso. O fundamento do ser não apenas explica o mundo; ele se envolve com o mundo. Por isso, a afirmação joanina não é apenas uma ressignificação filosófica, mas uma revelação teológica.

 

[3] Teologia negativa (apofática) designa a abordagem segundo a qual Deus excede toda linguagem e todo conceito humano, de modo que nenhuma formulação positiva é capaz de contê-lo adequadamente. Parte-se do reconhecimento de que a linguagem humana, embora necessária, é sempre desproporcional ao ser divino, razão pela qual falar corretamente de Deus exige mais negação do que afirmação: Deus não é isto, não é aquilo, não é como pensamos. Essa perspectiva encontra expressão clássica na obra Teologia Mística, atribuída a Pseudo-Dionísio Areopagita, onde a ascensão ao conhecimento de Deus se dá pela via do despojamento conceitual; em Gregório de Nissa, para quem a verdadeira contemplação conduz sempre a um “avanço no mistério”; e em Máximo, o Confessor, que articula a transcendência divina com a economia da revelação. Em Agostinho de Hipona, essa intuição aparece de forma lapidar na máxima si comprehendis, non est Deus (“se compreendes, não é Deus”), indicando que toda compreensão plena de Deus seria, por definição, uma redução indevida do seu ser infinito.

[4] Teologia positiva (catafática) designa a abordagem segundo a qual é possível afirmar coisas verdadeiras sobre Deus, porque Ele se revelou e se deixou conhecer, ainda que de modo analógico e não exaustivo. Diferentemente da via apofática, que enfatiza os limites da linguagem, a teologia catafática parte do princípio de que os nomes, atributos e predicações bíblicas, como bom, justo, santo, amor, criador, salvador, dizem algo real sobre Deus, ainda que não o esgotem. Em termos clássicos, afirma-se que Deus é aquilo que Ele mesmo revelou ser, mas sempre de modo eminente e analógico, não literal nem unívoco. Essa linha aparece com força na tradição patrística e escolástica: em Irineu de Lião, para quem Deus se dá a conhecer progressivamente na economia da salvação; em Atanásio de Alexandria, especialmente na defesa da divindade do Logos a partir da revelação histórica de Cristo; e em Tomás de Aquino, que sistematiza a via catafática por meio da analogia do ser (analogia entis), afirmando que tudo o que dizemos de Deus é verdadeiro, mas verdadeiro segundo um modo elevado, proporcional à sua transcendência. No interior do cristianismo, essa via positiva encontra seu fundamento último na encarnação do Logos, pois aquilo que era invisível e incompreensível em sua essência torna-se realmente cognoscível em sua revelação, sem que isso implique redução ou domesticação do mistério divino.

[5] Tudo aquilo que falamos de Deus a partir da linguagem não é nada comparado ao que Ele é.

 

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