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Entre Arrependimento, Perdão e Retórica Religiosa: uma Análise Bíblica e Ética do Pedido de Perdão como Estratégia de Poder

Paulo Mazarem [1] Resumo:  O presente artigo propõe uma distinção conceitual e teológica entre arrependimento, confissão, reconciliação, pedido de perdão e perdão, demonstrando que tais categorias, frequentemente tratadas como equivalentes no discurso cristão contemporâneo, possuem funções bíblicas e éticas distintas. A partir de análise exegética dos textos neotestamentários em língua original, argumenta-se que o arrependimento (μετάνοια) é explicitamente ordenado nas Escrituras como mudança interior e prática, enquanto o pedido de perdão, entendido como fórmula verbal imperativa, não aparece como mandamento formal nos textos bíblicos. Sustenta-se que, em determinados contextos religiosos e hierárquicos, o pedido de perdão tem sido instrumentalizado como recurso retórico de gestão de imagem, silenciamento de conflitos e preservação de autoridade, dissociado de mudança comportamental efetiva. Em contraste, o perdão bíblico é apresentado como um ato unilateral, libertador e teologic...

O Mal na Bíblia: A Construção Histórica de Satã, Diabo e Lúcifer

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                 Paulo Massarin [1] Resumo: Este artigo propõe uma análise histórico-crítica da construção bíblica e pós-bíblica das figuras de Satã, Diabo e Lúcifer, demonstrando que tais categorias não emergem das Escrituras como personagens ontológicos prontos, coesos e lineares. Ao contrário, o estudo evidencia que essas figuras são fruto de um processo progressivo, marcado por transformações linguísticas, traduções, releituras teológicas e métodos hermenêuticos próprios de diferentes períodos históricos. A investigação parte do uso funcional do termo śā ṭ ān no Antigo Testamento, passa pela moralização do conceito por meio da tradução grega (diábolos), e culmina na ontologização de Lúcifer como “anjo caído” a partir da leitura alegórica patrística de textos como Isaías 14 e Ezequiel 28. O artigo demonstra que a associação entre Isaías 14 e uma rebelião angelical não encontra respaldo exegético no texto original, sendo resultado da histór...

Sachsen Spiegel e o que “até que a morte os separe” têm em comum

                                                                                                                                                                                                     Paulo Massarin [1] Sachsenspiegel definitivamente não está na boca de todo mundo. Aliás, é bem possível que você nunca tenha ouvido alguém sequer pronunciá-lo. Se fôssemos dizê-lo a partir de uma perspectiva aportuguesada, soaria...

Quando o saber mata: razão, religião e a ilusão do progresso moral

Paulo Mazarem   É comum ouvirmos que o conhecimento liberta o homem da ignorância e que certos saberes seriam capazes não apenas de instruir, mas de moralizar a humanidade, aperfeiçoando-a nas esferas religiosa, cívica, ética e até ontológica. Contudo, essa confiança quase redentora no saber revela-se profundamente frágil quando confrontada com as grandes tragédias da história.         O Holocausto para mim é uma das experiências humanas mais tétricas e que serve como arquétipo para que possamos percepcionar que o conhecimento humano não é sinônimo de bem-aventurança ou de bem-estar comum. Aliás, as inquisições, cruzadas, os colonialismos e o próprio Shoah , comprovam a tese de que o suposto darwinismo social evolutivo da humanidade, sempre acaba por desvelar a selvageria mais perversa que habita a humanidade caída, governada pelo pecado, ambição descomedida e fática barbárie que a meu ver, está longe da civilidade tão aspirada pelo novo homem que em C...