O Mal na Bíblia: A Construção Histórica de Satã, Diabo e Lúcifer

                Paulo Massarin[1]

Resumo:

Este artigo propõe uma análise histórico-crítica da construção bíblica e pós-bíblica das figuras de Satã, Diabo e Lúcifer, demonstrando que tais categorias não emergem das Escrituras como personagens ontológicos prontos, coesos e lineares. Ao contrário, o estudo evidencia que essas figuras são fruto de um processo progressivo, marcado por transformações linguísticas, traduções, releituras teológicas e métodos hermenêuticos próprios de diferentes períodos históricos. A investigação parte do uso funcional do termo śāān no Antigo Testamento, passa pela moralização do conceito por meio da tradução grega (diábolos), e culmina na ontologização de Lúcifer como “anjo caído” a partir da leitura alegórica patrística de textos como Isaías 14 e Ezequiel 28. O artigo demonstra que a associação entre Isaías 14 e uma rebelião angelical não encontra respaldo exegético no texto original, sendo resultado da história da interpretação cristã, especialmente no contexto patrístico e medieval. Conclui-se que a Bíblia apresenta uma abordagem do mal mais ética, relacional e histórica do que demonológica, deslocando o foco da personalização metafísica do mal para a responsabilidade humana, as estruturas de poder, a idolatria e as escolhas morais.

 Palavras-Chave: Mal na Bíblia; Satã; Diabo; Lúcifer; Isaías 14; Demonologia bíblica; História da interpretação; Exegese histórico-crítica. 

 

Introdução                                                                                                                                                         Há um dado que costuma desconcertar quem se aproxima da Bíblia com o imaginário religioso já pronto: as grandes figuras do “mal pessoal”, Satã[2], Diabo[3] e Lúcifer[4], não nascem juntas, não nascem prontas e nem nascem no mesmo lugar. Elas são fruto de um processo histórico, linguístico e teológico longo, marcado por sobreposições, traduções e releituras sucessivas.

                                       Uma imagem contendo no interior, edifício, luz, fogoO conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.                                         

 Fonte: elaboração própria[5] (2026).

 

             Da Função à Moralização: Satã e Diabo na Tradição Grega

Antes de tudo, é preciso desfazer um equívoco comum: não existe, na Bíblia, uma genealogia clara e linear dessas figuras. O que existe é um encadeamento progressivo de funções, metáforas e personagens que, com o tempo, foram fundidos pela tradição.

O ponto de partida, sem dúvidas é Satã. No hebraico bíblico, śāān não é um nome próprio, mas um substantivo funcional e significa adversário, opositor, acusador. Ele aparece em contextos jurídicos, militares e administrativos. É importante dizer que um satan pode ser um anjo, um humano ou qualquer agente que se coloque como obstáculo ou tente obliterar um caminho, um projeto, um propósito. Em textos como Jó 1–2 e Zacarias 3, o satã atua dentro do conselho divino, não como inimigo de Deus, mas como uma espécie de promotor ou fiscal. Ontologicamente, ele não é o mal absoluto; funcionalmente, ele cumpre um papel. Isso nos obriga a uma primeira provocação: o mal, nesse estágio bíblico, não precisa de um “rei das trevas”. Ele é tratado como tensão e conflito.

O segundo passo acontece com a tradução. Quando a Bíblia Hebraica é vertida para o grego, sobretudo na Septuaginta, śāān passa a ser traduzido por diábolos. Aqui ocorre uma mudança decisiva. Diábolos significa caluniador, aquele que divide, que lança acusações falsas. Ainda é uma função, mas já carregada de juízo moral mais acentuado. Ou seja, o que antes era um papel dentro da ordem divina, agora começa a ganhar contornos mais negativos. E isso não ocorre sem motivos, uma vez que tradução, aqui, não é neutra: ela cria teologia.

Quando chegamos no Novo Testamento, esse processo se intensifica. No contexto neotestamentário, Satã e Diabo passam a ser usados quase como sinônimos. Entretanto, é importante notar que mesmo nos Evangelhos, o Diabo não é um deus rival, nem um princípio eterno do mal. De verdade, Ele é um subordinado, limitado e derrotável. Nesse aspecto, o cristianismo primitivo, ele continua antimaniqueísta[6]. Logo, o mal não é uma substância; é uma distorção. Mas então surge a pergunta inevitável: de onde vem Lúcifer.  

                Lúcifer em Isaías 14: Metáfora Política e Leitura Alegórica

Aqui entramos no campo mais delicado, e talvez o mais revelador. Lúcifer não nasce como nome de um ser demoníaco. Ele surge de uma imagem poética. Em Isaías 14, o profeta ironiza a queda do rei da Babilônia usando a metáfora da “estrela da manhã[7]” (hêlēl ben-shachar). É importante observar que o texto fala de soberba política, não de rebelião angelical. Nesse contexto, ratificando, o alvo é o rei da Babilônia; o gênero é poesia satírica política; hêlēl ben-shachar é uma metáfora astral, comum no Antigo Oriente e a “queda” é humilhação histórica, não um evento cósmico. De modo que nada, absolutamente no texto exige, sugere ou pressupõe um anjo rebelde e para ser honesto intelectualmente aqui há consenso exegético amplo, inclusive entre estudiosos conservadores[8]. Portanto, a pergunta correta não é “onde Isaías ensina isso?”, mas, por que alguém passou a ler isso assim?

Bem, tudo indica que a primeira semente para essa leitura é tradução latina, a Vulgata. Quando esse verso 7 de Isaias 14, é traduzido para o latim, hêlēl vira lúcifer, “portador da luz”. Assim, o que era metáfora política passa a ser lido, séculos depois, como narrativa cósmica e o que era imagem começa a parecer personagem.


Da Metáfora à Ontologia: A Construção Patrística de Lúcifer

A patrística, especialmente a partir de leituras alegóricas[9],  faz o movimento decisivo: fundir Isaías 14, Ezequiel 28, Satã e o Diabo numa única biografia mítica. Nasce, assim, o Lúcifer como “anjo caído”, identificado retroativamente com Satã e Diabo. Mas é fundamental dizer com clareza: essa fusão não está explicitamente na Bíblia. Ela é uma construção teológica posterior, coerente com certos contextos, mas não exigida pelo texto bíblico.

Do ponto de vista genealógico e geográfico, o que vemos é o seguinte:

·       Satã emerge no contexto israelita, como função jurídica.

·       Diábolos se consolida no ambiente helenístico, via tradução e moralização do conceito.

·       Lúcifer nasce no mundo latino, a partir de uma leitura alegórica e posterior sistematização teológica.

Não há, portanto, uma substituição simples, mas uma sobreposição progressiva. Funções viram personagens. Metáforas viram biografias. Traduções viram ontologias.

Considerando o panorama mais amplo da Bíblia, isso revela algo decisivo: a Escritura fala pouco de entidades demoníacas e muito de responsabilidade humana, idolatria, poder, injustiça e fidelidade. A personalização extrema do mal cresce à medida que a leitura se afasta do texto e se aproxima de sistemas teológicos fechados.

Talvez a pergunta final seja a mais incômoda de todas: se Satã começou como função, o Diabo como acusação moral e Lúcifer como metáfora política, o que ganhamos, e o que perdemos, ao transformá-los num personagem absoluto? E, mais ainda: o que isso diz sobre nossa necessidade de externalizar o mal, em vez de enfrentá-lo onde a Bíblia mais insiste que ele está no coração, nas estruturas e nas escolhas humanas?

            Conclusão

À luz de tudo o que foi exposto, torna-se evidente que a compreensão bíblica do mal é mais histórica, funcional e ética do que ontológica e mitológica. Satã, Diabo e Lúcifer não emergem das Escrituras como personagens prontos, coesos e dotados de uma biografia metafísica unificada, mas como construções progressivas, moldadas por traduções, contextos culturais, métodos hermenêuticos e necessidades teológicas específicas de cada época. O que começa, no Antigo Testamento, como uma função jurídica ou um papel de oposição circunstancial, gradualmente se transforma, por meio da tradução grega, da leitura alegórica patrística e da sistematização medieval, em uma figura personalizada do mal absoluto.

Essa constatação não desautoriza a tradição cristã, mas a reposiciona criticamente, distinguindo com clareza entre o texto bíblico e a história de sua interpretação. O perigo não está na teologia que busca explicar o mal, mas na confusão entre exegese e tradição, entre metáfora e ontologia, entre poesia profética e metafísica dogmática. Quando isso ocorre, corre-se o risco de deslocar o foco central da Escritura: a responsabilidade humana diante de Deus, a denúncia da soberba, da idolatria e das estruturas injustas, e o chamado constante à conversão, à fidelidade e à justiça.

Em última análise, a Bíblia não oferece conforto à tentação de externalizar o mal como um inimigo exclusivamente externo, cósmico e personalizado. Pelo contrário, ela insiste em localizá-lo onde é mais desconfortável: no coração humano, nas relações sociais, nos sistemas de poder e nas escolhas cotidianas. Talvez seja justamente por isso que a figura de um “personagem absoluto do mal” tenha se tornado tão atraente ao longo da história: ela simplifica o problema, desloca a culpa e alivia a consciência. 

Contudo, a leitura bíblica mais honesta e rigorosa nos obriga a encarar uma verdade menos conveniente, porém mais transformadora: o combate ao mal, segundo a Escritura, começa menos no exorcismo do outro e mais na conversão de si, das estruturas e da própria forma de ler o texto sagrado.

 

            Corpus Bíblico das Referências a Satã, Diabo e Lúcifer[10]

ANTIGO TESTAMENTO

Termo: Satã / satan (שָׂטָן)

(função: adversário / acusador)

            •          Números 22.22, 32 – o anjo do Senhor como satan (opositor)

            •          1 Samuel 29.4 – satan como adversário humano

            •          2 Samuel 19.22 – adversário político

            •          1 Reis 5.4 – ausência de satan (opositor)

            •          1 Reis 11.14, 23, 25 – adversários levantados

            •          Jó 1–2 – o satã no conselho divino

            •          Zacarias 3.1–2 – o satã como acusador jurídico

            •          1 Crônicas 21.1 – Satã incita Davi (já com maior autonomia)

 Termos associados ao imaginário posterior

            •          Isaías 14.3–23 – cântico de escárnio contra o rei da Babilônia (hêlēl ben-shachar)

            •          Ezequiel 28.1–19 – lamento contra o rei de Tiro (querubim simbólico)

            •          Salmo 82 – julgamento dos “deuses”

            •          Deuteronômio 32.8–17 – deuses das nações / shedim

            •          Salmo 106.37 – sacrifícios aos Shedim

 NOVO TESTAMENTO

Termos: Satã / Satanás (σατανς)

            •          Mateus 4.1–11 – tentação de Jesus

            •          Mateus 12.26 – “Se Satanás expulsa Satanás…”

            •          Mateus 16.23 – “Para trás de mim, Satanás”

            •          Lucas 10.18 – “Vi Satanás cair como relâmpago”

            •          Lucas 13.16 – opressão atribuída a Satanás

            •          João 13.27 – Satanás entra em Judas

            •          Atos 5.3 – Satanás enche o coração de Ananias

            •          Romanos 16.20 – Satanás será esmagado

            •          1 Coríntios 5.5; 7.5 – Satanás como tentador

            •          2 Coríntios 12.7 – “mensageiro de Satanás”

            •          1 Tessalonicenses 2.18 – Satanás impede Paulo

            •          Apocalipse 2.9; 12.9; 20.1–3 – Satanás como acusador e adversário escatológico

 

Termo: Diabo (διάβολος)

(acusador / caluniador)

            •          Mateus 4.1–11 – o Diabo tenta Jesus

            •          João 8.44 – “pai da mentira”

            •          Efésios 6.11 – ciladas do Diabo

            •          1 Timóteo 3.6–7 – laço do Diabo

            •          Hebreus 2.14 – aquele que tinha o poder da morte

            •          Tiago 4.7 – resisti ao Diabo

            •          1 Pedro 5.8 – adversário que ruge

            •          Apocalipse 12.9 – Diabo identificado com Satanás

 

Termo: Demônios / espíritos

            •          Marcos 1.23–27; 5.1–20 – expulsões

            •          Mateus 8.28–34 – espíritos impuros

            •          1 Coríntios 10.20 – sacrifícios aos demônios

            •          1 Timóteo 4.1 – doutrinas de demônios

            •          Apocalipse 9.20; 16.14 – espíritos demoníacos

 

REFERÊNCIAS 

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

CHILDS, Brevard S. Teologia bíblica do Antigo e do Novo Testamento. Tradução de Jaci Maraschin. São Paulo: Paulus, 2011.

GOLDINGAY, John. Teologia do Antigo Testamento. Tradução de Luís Henrique Dreher. São Leopoldo: Sinodal, 2010.

HEISER, Michael S. O mundo invisível da Bíblia. Tradução de Cláudio Macedo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.

KAISER JR., Walter C. Teologia do Antigo Testamento. Tradução de Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2007.

LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução de Sueli Saraiva. São Paulo: Vida Nova, 2014.

MOTYER, J. Alec. A profecia de Isaías: Introdução e comentário. Tradução de Robinson Malkomes. São Paulo: Vida Nova, 2011.

OSWALT, John N. Isaías: introdução e comentário. Tradução de Neyd Siqueira. São Paulo: Vida Nova, 2016.

RIBEIRO, Oswaldo Luiz. Yahweh como um deus outsider: duas hipóteses explicativas para a introdução do culto de Yahweh em Israel. Revista Ágora, Vitória, n. 23, p. 13–29, 2016.

SCHMIDT, Werner H. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução de Monika Ottermann. São Leopoldo: Sinodal, 1994.


[1] Pastor, Teólogo e Cientista da Religião. E-mail: pauloreligiologo@icloud.com

[2] O termo śāān aparece no Antigo Testamento cerca de dezoito vezes; no Novo, aproximadamente trinta e seis. O total gira em torno de cinquenta e quatro ocorrências. Satan não designa, em primeiro lugar, um ser ontológico do mal, mas uma função: adversário, acusador, opositor. Em Jó, por exemplo, ele não está fora de Deus, muito menos em guerra contra Ele. Está dentro do conselho divino, exercendo um papel jurídico.

[3] O termo grego diábolos aparece cerca de trinta e oito vezes, exclusivamente no Novo Testamento. No Antigo, simplesmente não existe. Diábolos significa caluniador, divisor, acusador, novamente, uma descrição de ação, não um nome próprio no sentido moderno. 

[4] Lúcifer não nasce como nome de um ser demoníaco. Ele surge de uma imagem poética. Em Isaías 14, o profeta ironiza a queda do rei da Babilônia usando a metáfora da “estrela da manhã” (hêlēl ben-shachar). O texto fala de soberba política, não de rebelião angelical. Quando esse verso é traduzido para o latim, hêlēl vira lúcifer, “portador da luz”. O que era metáfora política passa a ser lido, séculos depois, como narrativa cósmica, como entidade ontológica e metafísica.

[5] A imagem propõe uma leitura histórico-teológica segundo a qual as figuras de Satã, Diabo e Lúcifer não constituem uma unidade ontológica originária, mas resultam de processos distintos e sucessivos de construção discursiva. Cada figura emerge de tradições textuais, linguísticas e interpretativas próprias, hebraica, grega e latina, posteriormente sobrepostas pela tradição cristã. O uso de pergaminhos, textos e instrumentos de escrita desloca a compreensão do mal de uma entidade metafísica fixa para um fenômeno mediado pela linguagem, pela tradução e pela hermenêutica, evidenciando que o imaginário demonológico é, em larga medida, produto histórico, cultural e interpretativo.

[6] Antimaniqueísta significa oposição à visão maniqueísta da realidade, isto é, a rejeição da ideia de que o mundo é governado por dois princípios eternos e equivalentes, um absolutamente bom e outro absolutamente mau, em conflito permanente.

[7] Isaías 14. 7 - Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alvorada! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações!

[8] Cf. John N. Oswalt, The Book of Isaiah (NICOT), que interpreta Isaías 14 como linguagem poética e mitológica aplicada a um rei humano; Alec Motyer, The Prophecy of Isaiah, que rejeita a leitura angelológica direta; Tremper Longman III, que entende o texto como cântico de escárnio real típico do Antigo Oriente Próximo; e Walter C. Kaiser Jr., que afirma tratar-se da humilhação histórica de um governante, não de um evento pré-histórico celestial.

[9] A leitura alegórica, simbólica e tipológica praticada pelos Pais da Igreja deve ser compreendida em seu contexto histórico-intelectual. A exegese histórico-crítica, tal como desenvolvida a partir da modernidade (séculos XVIII–XIX), não fazia parte do horizonte hermenêutico antigo. Autores patrísticos como Orígenes, Agostinho e Gregório de Nissa operavam com a convicção de que a Escritura possuía múltiplos níveis de sentido (literal, moral, espiritual), e que os eventos históricos narrados podiam funcionar como typoi de realidades teológicas mais amplas. Nesse contexto, figuras históricas, como o rei da Babilônia em Isaías 14, puderam ser reinterpretadas tipologicamente como imagens do mal cósmico, processo que culminou na identificação posterior de lúcifer como nome próprio de um ser espiritual caído. Tal procedimento não configura fraude intelectual, mas reflete um método hermenêutico antigo, comum tanto no cristianismo primitivo quanto no judaísmo tardio e na cultura greco-romana, no qual a alegoria era considerada um meio legítimo de acesso ao sentido profundo do texto sagrado.

[10] Nota metodológica. O agrupamento dessas passagens não pressupõe identidade ontológica entre Satã, Diabo, demônios ou figuras simbólicas do Antigo Testamento, mas visa evidenciar o uso progressivo, funcional e contextual desses termos ao longo da tradição bíblica, conforme demonstrado no desenvolvimento histórico discutido neste artigo.

 

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