Entre Arrependimento, Perdão e Retórica Religiosa: uma Análise Bíblica e Ética do Pedido de Perdão como Estratégia de Poder
Paulo Mazarem[1]
Resumo:
O presente artigo propõe uma distinção conceitual e teológica entre arrependimento, confissão, reconciliação, pedido de perdão e perdão, demonstrando que tais categorias, frequentemente tratadas como equivalentes no discurso cristão contemporâneo, possuem funções bíblicas e éticas distintas. A partir de análise exegética dos textos neotestamentários em língua original, argumenta-se que o arrependimento (μετάνοια) é explicitamente ordenado nas Escrituras como mudança interior e prática, enquanto o pedido de perdão, entendido como fórmula verbal imperativa, não aparece como mandamento formal nos textos bíblicos. Sustenta-se que, em determinados contextos religiosos e hierárquicos, o pedido de perdão tem sido instrumentalizado como recurso retórico de gestão de imagem, silenciamento de conflitos e preservação de autoridade, dissociado de mudança comportamental efetiva. Em contraste, o perdão bíblico é apresentado como um ato unilateral, libertador e teologicamente orientado à restauração interior do ofendido, não condicionado ao arrependimento do ofensor. Conclui-se que onde não há mudança concreta de práticas, não houve arrependimento genuíno, mas retórica religiosa funcional ao poder.
Palavras-chave: Arrependimento; Perdão; Confissão; Ética Cristã; Poder Religioso; Metanoia.
Introdução
No vocabulário religioso cristão contemporâneo, expressões como pedir perdão, arrependimento, confissão, reconciliação e perdão são frequentemente utilizadas de forma intercambiável. Tal sobreposição conceitual, contudo, não encontra respaldo sólido nem na exegese bíblica nem na tradição ética cristã. O resultado é uma prática religiosa marcada por gestos simbólicos e performances discursivas que, muitas vezes, substituem processos reais de transformação pessoal e relacional.
Este artigo parte da hipótese de que o pedido de perdão, enquanto fórmula linguística e prática ritualizada, não constitui um mandamento bíblico formal, ao passo que o arrependimento é claramente ordenado nas Escrituras. Defende-se ainda que, em determinados ambientes religiosos e hierárquicos, o pedido de perdão pode assumir função estratégica, operando como instrumento de preservação de autoridade, neutralização de conflitos e controle narrativo.
A investigação propõe, portanto, uma análise bíblica, teológica e ética dessas categorias, contrapondo o uso retórico do pedido de perdão à compreensão bíblica do arrependimento e do perdão como realidades existenciais, transformadoras e espiritualmente exigentes.
Arrependimento (μετάνοια) como Mandamento Bíblico
A análise dos textos neotestamentários evidência que o arrependimento ocupa lugar central na proclamação de Jesus e da igreja primitiva. O verbo μετανοεῖτε aparece no modo imperativo em passagens fundamentais, como Mateus 4.17, Atos 2.38 e Atos 17.30. Em tais textos, o arrependimento não é apresentado como sentimento subjetivo ou fórmula verbal, mas como mudança de mente, direção e prática.
O termo μετάνοια implica reorientação existencial, deslocamento do eixo da vida e abandono de padrões anteriores (DUNN, 2003). Tal compreensão é reforçada pela exigência de frutos concretos, conforme Mateus 3.8: “Produzi frutos dignos de arrependimento.” A ausência de mudança comportamental, portanto, invalida qualquer alegação de arrependimento genuíno. Diferentemente disso, não se encontra nos textos originais hebraicos, aramaicos ou gregos um imperativo equivalente à construção moderna “peça perdão”. A Escritura não formaliza o pedido de perdão como procedimento ético autônomo, o que problematiza sua centralidade no discurso religioso atual.
Confissão e Transparência Comunitária
A confissão, conforme Tiago 5.16, aparece vinculada a um contexto comunitário e terapêutico: “Confessai (ἐξομολογεῖσθε) os vossos pecados uns aos outros.” O verbo, no imperativo médio, indica envolvimento pessoal e responsabilidade relacional, não absolvição jurídica ou ritual técnico.
Segundo Dietrich Bonhoeffer, a confissão cristã perde seu sentido quando se transforma em ato performático desvinculado da verdade e da responsabilidade ética. A confissão bíblica visa cura, restauração e reconciliação real, e não encerramento simbólico de conflitos. Assim, a Escritura não reduz a ética cristã a procedimentos formais, mas a práticas de verdade, exposição à luz e responsabilidade mútua.
Reconciliação, Perdão e a Ausência do Pedido Formal
Jesus, em Lucas 17.3, estabelece uma relação clara entre arrependimento e perdão: “Se teu irmão pecar, repreende-o. Se ele se arrepender, perdoa-lhe.” Observe que o texto não orienta o ofensor a pedir perdão, mas convoca o ofendido a perdoar diante do arrependimento percebido.
Essa formulação desloca o foco da performance verbal do ofensor para a postura ética do ofendido. O perdão, nesse sentido, não é condicionado a uma fórmula linguística, mas à realidade do arrependimento, quando este existe, e, em última instância, à decisão interior de quem perdoa.
O Pedido de Perdão como Estratégia Retórica
Em determinados contextos religiosos, especialmente em ambientes hierárquicos e pouco auditáveis, o pedido de perdão assume função estratégica. Ele opera como capital simbólico de humildade, neutralizando críticas e criando uma dívida moral no outro, que se vê constrangido a encerrar o conflito em nome da maturidade espiritual.
Expressões genéricas como “se em algum momento falhei” ou “todos erramos” diluem responsabilidades, redistribuem culpas e relativizam danos concretos. Nesses casos, o pedido de perdão não promove reconciliação, mas gestão de imagem e manutenção de poder. Tal prática se aproxima do que Bonhoeffer denominou graça barata: discurso religioso que preserva estruturas de poder sem exigir transformação ética (BONHOEFFER, 2012).
Perdão como Ato Unilateral e Libertador
O perdão bíblico não é apresentado como instrumento de silenciamento nem como mecanismo de esquecimento do mal. Ele é, antes, um ato unilateral que visa libertar o ofendido do ressentimento e da captura moral pelo dano sofrido.
O exemplo de José do Egito ilustra essa lógica: vendido por seus irmãos, José não exige pedido de perdão, mas perdoa, compreendendo que a retenção do ressentimento o tornaria semelhante aos ofensores. O perdão, nesse sentido, é resistência espiritual ao mal e preservação da integridade interior.
A ética paulina em Romanos 12.17–21 reforça essa compreensão, ao exortar os cristãos a não retribuírem mal por mal e a entregarem o juízo final a Deus.
Conclusão
A análise bíblica e ética demonstra que o pedido de perdão, enquanto fórmula ritualizada, não constitui mandamento bíblico formal. O arrependimento, sim, é explicitamente ordenado, assim como o perdão é exigido como prática cristã fundamental.
Quando dissociado de mudança concreta de comportamento, o pedido de perdão pode se tornar instrumento de silenciamento, manipulação e preservação de autoridade. Onde não há transformação prática, não houve arrependimento, mas retórica religiosa.
O perdão cristão, por sua vez, não legitima abusos nem elimina a responsabilidade moral, mas liberta o ofendido do ressentimento e impede que o mal sofrido determine sua identidade. Trata-se de um ato teológico profundo, que não nega a justiça, mas confia o juízo final a Deus.
Referências
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2016.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Leopoldo: Sinodal, 2012.
DUNN, James D. G. Jesus Remembered. Grand Rapids: Eerdmans, 2003.
HAYS, Richard B. The Moral Vision of the New Testament. New York: HarperOne, 1996.
STOTT, John. A Cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 2007.
WRIGHT, N. T. After You Believe: Why Christian Character Matters. New York: HarperOne, 2010.
1. Pastor, Teólogo e Cientista da Religião. E-mail: pauloreligiologo@icloud.com
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