A HISTÓRIA DA MÚSICA COMO FENÔMENO CULTURAL, ESTÉTICO E TEOLÓGICO: UMA ANÁLISE CRÍTICA DAS SUAS ORIGENS À MODERNIDADE


 

Paulo Massarin[1]

RESUMO

 

O presente artigo propõe uma análise histórico-crítica do desenvolvimento da música enquanto fenômeno cultural, estético e teológico, desde suas manifestações pré-históricas até as transformações do século XX. Superando abordagens meramente descritivas, o estudo investiga os fundamentos antropológicos da música, sua inserção nas civilizações antigas e sua progressiva sistematização no Ocidente. Examina-se, com especial atenção, a relação entre música e religião, destacando o papel da tradição hebraica e da Igreja cristã na formação da música ocidental. O trabalho também confronta equívocos recorrentes em materiais didáticos, especialmente quanto à origem do canto gregoriano, à contribuição de Guido de Arezzo e à periodização histórica. Conclui-se que a música não pode ser compreendida apenas como arte sonora, mas como linguagem simbólica que articula cosmovisão, estrutura social e experiência espiritual.

 

Palavras-chave: História da música; estética; música sacra; cultura; teologia.

 

ABSTRACT

This article presents a historical-critical analysis of the development of music as a cultural, aesthetic, and theological phenomenon, from its prehistoric manifestations to the transformations of the 20th century. Moving beyond purely descriptive approaches, the study examines the anthropological foundations of music, its role in ancient civilizations, and its progressive systematization in the Western world. Special attention is given to the relationship between music and religion, highlighting the influence of Hebrew tradition and the Christian Church on the formation of Western music. The article also challenges common inaccuracies found in didactic materials, particularly regarding Gregorian chant, Guido of Arezzo, and historical periodization. It concludes that music must be understood not merely as sound art, but as a symbolic language that articulates worldview, social structure, and spiritual experience.

 

1. INTRODUÇÃO

A música, frequentemente definida como a arte de organizar sons e silêncios no tempo, constitui uma das mais antigas e universais formas de expressão humana. Contudo, tal definição, embora funcional, revela-se insuficiente diante da complexidade do fenômeno musical. A música não é apenas uma construção acústica, mas uma linguagem simbólica que opera na interseção entre emoção, cultura, estrutura social e transcendência.

Do ponto de vista epistemológico, a música desafia categorias rígidas, pois não se limita ao campo da racionalidade discursiva. Diferentemente da linguagem proposicional, a música comunica por meio de formas, intensidades e relações temporais, sendo capaz de expressar conteúdos que escapam à formulação conceitual.

Este artigo parte da premissa de que a história da música deve ser compreendida não apenas como sucessão de estilos, mas como manifestação de diferentes cosmovisões. Nesse sentido, cada período musical reflete uma determinada compreensão do homem, do mundo e, em muitos casos, do próprio Deus.

 

2. FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS DA MÚSICA

A origem da música remonta à pré-história, embora sua forma exata permaneça inacessível à investigação direta. Evidências arqueológicas, como flautas de osso (datadas de aproximadamente 40.000 anos) e representações pictóricas de danças e rituais, indicam que o fenômeno musical precede a escrita e se insere nas práticas simbólicas mais primitivas da humanidade.

A música, nesse contexto, não surge como entretenimento, mas como instrumento de mediação entre o humano e o transcendente. Ela está associada a rituais de caça, fertilidade, morte e celebração, funcionando como mecanismo de coesão social e de elaboração simbólica da realidade.

Do ponto de vista antropológico, pode-se afirmar que a música é coextensiva à própria cultura. Como observa John Blacking, “a música é som humanamente organizado”, o que implica que sua estrutura depende de padrões culturais específicos.

 

3. MÚSICA NAS CIVILIZAÇÕES ANTIGAS

 3.1 Mesopotâmia: música, escrita e culto

Na Mesopotâmia, a música não era mero entretenimento, mas parte estrutural da vida religiosa, política e cortesã. Entre sumérios, acádios, babilônios e assírios, a prática musical estava ligada ao templo, à monarquia, aos rituais funerários, às festas públicas e à legitimação simbólica do poder. Isso significa que a música funcionava como linguagem de mediação entre o mundo humano e o mundo divino.

A arqueologia confirma a sofisticação musical mesopotâmica. As liras de Ur, encontradas no Cemitério Real de Ur e datadas aproximadamente de 2600 a.C., demonstram o uso avançado de instrumentos de cordas em contextos cerimoniais. O British Museum conserva exemplares reconstruídos dessas liras, associadas ao mundo sumério antigo.  

Outro dado fundamental é a existência de textos cuneiformes relacionados à música. O chamado Hino Hurrita nº 6, encontrado em Ugarit e datado aproximadamente do século XIV a.C., é frequentemente apresentado como uma das mais antigas evidências de notação musical conhecida. O texto contém um hino dedicado à deusa Nikkal e instruções musicais associadas a uma escala heptatônica. Isso torna a Mesopotâmia decisiva para a história da música por três razões: primeiro, porque revela uma música vinculada ao culto; segundo, porque apresenta instrumentos complexos; terceiro, porque oferece vestígios de tentativa de registro musical. Contudo, é preciso cautela: não se deve imaginar uma “partitura” moderna. A notação mesopotâmica era fragmentária, técnica e dependente de tradição interpretativa.

 

3.2 Tradição hebraica: música, aliança e memória sagrada

A tradição hebraica ocupa lugar singular na história da música porque preserva, nas Escrituras, uma reflexão teológica sobre o som, o louvor e a memória comunitária. A menção a Jubal em Gênesis 4.21 — “pai de todos os que tocam harpa e flauta” — não deve ser lida apenas como curiosidade histórica, mas como indicação de que a música aparece, no imaginário bíblico, como uma das expressões fundamentais da cultura humana.

Nos textos bíblicos, a música aparece em contextos diversos: celebração, guerra, lamento, coroação, procissão, culto sacrificial e ação de graças. O cântico de Moisés em Êxodo 15, o cântico de Débora em Juízes 5, os salmos davídicos, o serviço musical levítico em 1Crônicas 15–16 e 25, e as referências a trombetas, címbalos, harpas e saltérios demonstram que a música em Israel era profundamente integrada à vida religiosa.

O ponto central é que, em Israel, a música não é autônoma em relação à revelação. Ela está subordinada à memória dos atos de Deus. O louvor bíblico não nasce apenas da emoção humana, mas da resposta da comunidade à ação divina na história. Por isso, os Salmos não são apenas poesia religiosa; são também memória litúrgica, catequese cantada e formação espiritual do povo.

Essa tradição será decisiva para o cristianismo. A igreja primitiva herdará da sinagoga a prática da salmodia, da recitação cantada e da centralidade do texto sagrado. Portanto, a música cristã não nasce do nada; ela nasce de uma matriz judaica, bíblica e litúrgica.

 

3.3 Egito: música, ritual e ordem cósmica

No Egito antigo, a música estava ligada à religião, ao poder faraônico e à visão de ordem cósmica. Ela acompanhava ritos funerários, cerimônias templárias, procissões, banquetes e solenidades públicas. Harpas, flautas, sistros, tambores e instrumentos de percussão aparecem em representações iconográficas egípcias, especialmente em tumbas e cenas de culto.

A música egípcia não pode ser reduzida ao aspecto estético. Ela participava da manutenção simbólica da ordem. Em uma cultura marcada pela ideia de maat — ordem, equilíbrio e justiça cósmica — o rito, a palavra, o gesto e o som cooperavam para sustentar a harmonia entre deuses, faraó, natureza e sociedade.

Isso é importante para o artigo porque mostra que, nas civilizações antigas, música e religião quase nunca aparecem separadas. A autonomia moderna da música como “arte pura” é uma construção posterior. No Egito, como na Mesopotâmia, a música pertence ao universo ritual.

 

3.4 Grécia: música, matemática, ética e formação do caráter

 Na Grécia, a música alcança um novo nível de elaboração intelectual. Ela deixa de ser apenas prática ritual e passa a ser também objeto de reflexão filosófica. O termo grego mousikḗ não designava apenas som organizado, mas um conjunto de artes vinculadas às Musas: poesia, canto, dança, memória, educação e formação integral.

A tradição pitagórica relacionou música e matemática, especialmente por meio das proporções numéricas dos intervalos. A descoberta de relações proporcionais entre comprimento da corda e altura sonora contribuiu para a ideia de que o cosmos possuía uma ordem racional. Daí nasce a noção de “harmonia” não apenas como conceito musical, mas também cosmológico.

Em Platão, a música possui função pedagógica e moral. Na República, ele discute os efeitos dos modos musicais sobre o caráter dos cidadãos. A música, portanto, não é neutra: ela educa afetos, disciplina a alma e participa da formação ética da pólis.

Aqui há uma contribuição decisiva da Grécia: a música passa a ser pensada como força formadora do ser humano. Não apenas acompanha o culto ou o rito, mas molda a sensibilidade, a moralidade e a inteligência.

 

4. A música no contexto cristão e medieval

A música cristã primitiva deve ser compreendida como continuidade transformada da tradição judaica. Os primeiros cristãos herdaram da sinagoga a centralidade da Escritura, da salmodia, da recitação entoada e da oração comunitária. Textos como Efésios 5.19 e Colossenses 3.16 indicam o uso de “salmos, hinos e cânticos espirituais” na vida das comunidades cristãs.

Contudo, o cristianismo não apenas recebeu a música judaica; ele a reinterpretou à luz de Cristo. O louvor cristão passa a ser cristológico, e a música torna-se veículo de confissão, doutrina, memória pascal e edificação comunitária. Cânticos como o Magnificat em Lucas 1.46-55, o Benedictus em Lucas 1.68-79 e o possível hino cristológico de Filipenses 2.6-11 demonstram que a fé cristã primitiva já possuía forte densidade poética e litúrgica.

É necessário, porém, corrigir um equívoco frequente: o canto gregoriano não existia antes de Cristo. O que existia era a tradição judaica de salmodia e recitação litúrgica. O canto gregoriano, propriamente dito, pertence ao desenvolvimento medieval da música litúrgica latina. A Britannica define o canto gregoriano como música litúrgica monofônica da Igreja Católica Romana, associada à missa e ao ofício divino.  

O chamado cantochão, ou cantus planus, caracteriza-se por uma linha melódica única, sem acompanhamento instrumental e com ritmo livre, subordinado ao texto. A própria noção de cantochão está ligada à monofonia e à ausência de métrica rígida, em contraste com a música polifônica posterior.  

A importância do canto gregoriano está no fato de ele ter contribuído para a formação da tradição musical ocidental. Ao unir texto latino, liturgia, memória e melodia, ele criou uma cultura sonora profundamente marcada pela teologia. A música não visava ao espetáculo, mas à oração; não buscava a exibição individual, mas a elevação comunitária do texto sagrado.

Outro elemento decisivo da Idade Média é a passagem da oralidade para formas mais estáveis de notação. Antes de Guido de Arezzo, os neumas[2] indicavam movimentos melódicos, mas não fixavam com precisão absoluta as alturas. Guido, no século XI, aperfeiçoou o ensino musical por meio da solmização, do tetragrama e de recursos pedagógicos como a mão guidoniana. Seu sistema de solmização utilizou as sílabas iniciais do hino Ut queant laxis: ut, re, mi, fa, sol, la.  

Portanto, a Idade Média não foi um período musicalmente “obscuro”, como às vezes se afirma. Ao contrário, foi nela que se consolidaram elementos fundamentais para a música ocidental: a liturgia cantada, a notação, a teoria modal, a pedagogia musical e os primeiros passos que levariam à polifonia.

 

5. RENASCIMENTO E A CONSOLIDAÇÃO DA POLIFONIA (c. 1400–1600)

O Renascimento musical não pode ser reduzido a uma simples “passagem do teocentrismo ao humanismo”. Essa leitura é útil, mas superficial. O que ocorre, de fato, é uma reconfiguração da relação entre arte, texto e sujeito, marcada pela redescoberta dos ideais clássicos, pelo desenvolvimento da imprensa e pela crescente valorização da inteligibilidade textual.

A polifonia — frequentemente apresentada como “novidade” — já existia em formas rudimentares na Idade Média (como o organum). O que o Renascimento faz é refinar, sistematizar e estetizar a polifonia, transformando-a em linguagem dominante. Compositores passam a trabalhar com múltiplas vozes independentes, organizadas por princípios de contraponto imitativo, equilíbrio interválico e controle da dissonância.

Nesse contexto, a música deixa de ser apenas suporte do texto litúrgico e passa a dialogar com ele de maneira mais sofisticada. Surge uma preocupação com a clareza textual, especialmente após as críticas levantadas no contexto da Reforma e da Contrarreforma. O Concílio de Trento, por exemplo, levanta questões sobre a inteligibilidade da palavra cantada, o que impacta diretamente a música sacra.

É nesse cenário que se insere Giovanni Pierluigi da Palestrina, cuja obra é frequentemente interpretada como paradigma de equilíbrio entre técnica polifônica e clareza litúrgica. Contudo, é preciso evitar a leitura romantizada de Palestrina como “salvador da música sacra”. Sua importância reside menos em um ato isolado e mais na síntese estilística de práticas já em circulação.

Paralelamente à música sacra, a música profana floresce com formas como o madrigal italiano, o chanson francês e o lied alemão. Aqui emerge uma dimensão decisiva: a música passa a expressar afetos humanos de forma mais direta, antecipando tendências que serão radicalizadas no período barroco.

 

6. BARROCO: DRAMATIZAÇÃO, RETÓRICA E CONSOLIDAÇÃO DA TONALIDADE (c. 1600–1750)

O Barroco não representa apenas uma intensificação da expressividade, mas uma mudança estrutural no modo de pensar a música. Se o Renascimento privilegia o equilíbrio horizontal das vozes, o Barroco introduz uma lógica vertical baseada na harmonia funcional, organizando a música em torno de centros tonais.

Esse período está profundamente ligado ao desenvolvimento de uma estética da retórica musical. A música passa a ser concebida como linguagem capaz de persuadir, emocionar e comunicar afetos específicos (Affektenlehre). Cada recurso musical — intervalo, ritmo, tonalidade — é entendido como portador de significado.

A emergência da monodia acompanhada e do baixo contínuo marca a ruptura com a polifonia renascentista. A atenção desloca-se para a voz principal, sustentada por uma base harmônica. Isso abre caminho para o nascimento da ópera, que integra música, teatro e poesia em uma forma dramática unificada.

Nesse contexto, figuras como Johann Sebastian Bach representam o ápice da tradição contrapontística, sintetizando técnica rigorosa e profundidade teológica. Sua obra não é apenas musical, mas também teológica, estruturada muitas vezes com simbolismos numéricos e referências bíblicas.

Por outro lado, compositores como Antonio Vivaldi e George Frideric Handel expandem as formas instrumentais e vocais, contribuindo para a consolidação do concerto, do oratório e da ópera. O Barroco, portanto, não é apenas “emocional”; ele é profundamente sistematizador, estabelecendo as bases da tonalidade que dominarão a música ocidental por mais de dois séculos.

 

7. CLASSICISMO: FORMA, EQUILÍBRIO E RACIONALIZAÇÃO MUSICAL (c. 1750–1820)

 O Classicismo musical surge em um contexto marcado pelo Iluminismo, pelo avanço das ideias de racionalidade, clareza e universalidade. Diferentemente do Barroco, que valoriza o contraste e a dramaticidade, o Classicismo busca proporção, simetria e inteligibilidade formal.

A música passa a ser estruturada segundo modelos claros, sendo a forma-sonata o exemplo mais emblemático. Nela, encontramos uma organização lógica do discurso musical em exposição, desenvolvimento e recapitulação — quase como uma argumentação racional. Formas como a sinfonia, o quarteto de cordas e o concerto são refinadas e estabilizadas. Nesse processo, compositores como Joseph Haydn e Wolfgang Amadeus Mozart desempenham papel central.

Entretanto, a ideia de que o Classicismo elimina emoção ou religiosidade é incorreta. O que ocorre é uma disciplina da expressão, na qual o conteúdo afetivo é mediado pela forma. Mozart, por exemplo, compõe missas, óperas e obras profundamente expressivas, mas sempre dentro de um equilíbrio formal rigoroso. Outro aspecto relevante é a transformação do papel do músico. Ele deixa de ser exclusivamente um servidor da corte ou da Igreja e passa a ocupar gradualmente uma posição mais autônoma, preparando o terreno para a concepção romântica do artista.

 

8. ROMANTISMO: SUBJETIVIDADE, EXPRESSÃO E EXPANSÃO DOS LIMITES (c. 1800–1900)

O Romantismo representa uma mudança profunda na concepção de arte. Se o Classicismo valorizou a forma como medida da beleza, o Romantismo colocou no centro a subjetividade, a experiência interior e a expressão individual.

A música torna-se linguagem privilegiada do indizível, capaz de expressar aquilo que não pode ser plenamente capturado pela razão. Essa ideia está ligada ao pensamento filosófico de autores como Schopenhauer, que vê na música uma manifestação direta da vontade.

Ludwig van Beethoven ocupa posição central como figura de transição. Suas obras ampliam as estruturas clássicas, introduzindo maior dramaticidade, contraste e densidade emocional. A partir dele, a música deixa de ser apenas forma equilibrada e passa a ser também testemunho existencial.

 

No Romantismo, há:

·      expansão da orquestra,

·      liberdade formal,

·      intensificação da harmonia,

·      valorização do virtuosismo,

·      integração com literatura e filosofia.

 

Compositores como Frédéric Chopin exploram a interioridade e o lirismo; Richard Wagner desenvolve a ideia de obra de arte total (Gesamtkunstwerk), integrando música, drama e mitologia; Pyotr Ilyich Tchaikovsky combina emoção intensa com estrutura formal refinada.

Um ponto crucial: o Romantismo não é apenas “mais emocional”. Ele redefine o papel do artista como gênio criador, muitas vezes em tensão com a sociedade. A música torna-se não apenas expressão estética, mas também afirmação existencial.

 

9. SÉCULO XX: RUPTURA E PLURALIDADE

O século XX não deve ser compreendido apenas como um período de diversidade musical, mas como um momento de profunda crise estrutural na linguagem da música ocidental. A tradição tonal, que desde o período barroco organizava a música em torno de centros harmônicos estáveis, começa a apresentar sinais de esgotamento já no final do século XIX. Em compositores como Wagner e Mahler, percebe-se uma expansão progressiva da harmonia que leva a tonalidade ao seu limite, tensionando suas próprias bases internas.

Essa crise, contudo, não é exclusivamente musical. Ela reflete transformações mais amplas da modernidade: o avanço da industrialização, as rupturas provocadas pelas guerras mundiais, o surgimento da psicanálise e a crescente fragmentação das estruturas sociais e simbólicas. Nesse cenário, a música deixa de operar dentro de um sistema estável e passa a refletir um mundo marcado pela incerteza, pela experimentação e pela perda de referenciais unificadores.

É nesse contexto que emerge o atonalismo, associado sobretudo à obra de Arnold Schoenberg. Ao abandonar a ideia de centro tonal, Schoenberg rompe com a hierarquia tradicional entre consonância e dissonância, promovendo aquilo que ele próprio denominou “emancipação da dissonância”. A música deixa de gravitar em torno de uma tônica e passa a tratar os sons como estruturalmente equivalentes. Trata-se de uma ruptura radical, não apenas técnica, mas também estética e filosófica, pois implica o abandono da ideia de ordem musical objetiva.

No entanto, essa dissolução da tonalidade não permanece sem resposta. O próprio Schoenberg, seguido por discípulos como Anton Webern e Alban Berg, desenvolve o sistema dodecafônico, posteriormente ampliado no serialismo. Nesse modelo, os doze sons da escala cromática são organizados em séries, que passam a estruturar toda a composição. O que se observa aqui é uma tentativa de reconstrução da ordem, não mais baseada na tonalidade, mas em princípios racionais e matemáticos. Essa tendência atinge seu ponto extremo com compositores como Pierre Boulez, que expandem o serialismo para além das alturas, aplicando seus princípios também ao ritmo, à dinâmica e ao timbre.

Paralelamente a essas vanguardas altamente abstratas, desenvolve-se um movimento em direção oposta: o nacionalismo musical. Em vez de buscar uma linguagem universal, diversos compositores passam a valorizar identidades culturais específicas, incorporando elementos do folclore, ritmos regionais e tradições populares. Nesse campo, destacam-se nomes como Igor Stravinsky, especialmente em sua fase inicial, Béla Bartók, cuja pesquisa etnomusicológica influenciou profundamente sua produção, e Heitor Villa-Lobos, que integrou elementos da música popular e indígena brasileira em uma linguagem própria. Aqui, a música deixa de buscar uniformidade e passa a afirmar pluralidade cultural. Ainda mais radical é o movimento da música experimental, que não apenas rompe com a tonalidade, mas questiona o próprio conceito de música. Em obras como 4’33”, de John Cage, o silêncio deixa de ser ausência e passa a ser compreendido como espaço de escuta. A música, nesse contexto, não se limita aos sons organizados pelo compositor, mas inclui também os ruídos do ambiente e a experiência perceptiva do ouvinte. Essa ampliação do conceito musical abre caminho para o uso de eletrônica, aleatoriedade, ruídos e novas formas de produção sonora, dissolvendo as fronteiras tradicionais entre música e som.

Diante desse panorama, torna-se insuficiente afirmar que a música do século XX é simplesmente “fragmentada”. Mais apropriado é reconhecê-la como um campo de pluralidade irreconciliável, no qual múltiplas linguagens coexistem sem a presença de um sistema dominante. Diferentemente dos períodos anteriores, não há um paradigma unificador. Em vez disso, encontramos tensões constantes entre tradição e ruptura, ordem e experimentação, racionalidade e subjetividade.

Nesse sentido, a música do século XX revela uma dimensão mais profunda: ela espelha uma cultura que perdeu seus centros absolutos. Se na Idade Média a música refletia uma ordem divina, no Classicismo uma ordem racional e no Romantismo a interioridade do sujeito, a modernidade musical expressa uma realidade marcada pela crise de sentido. A perda do centro tonal torna-se, assim, metáfora de uma transformação mais ampla, na qual a própria ideia de unidade — estética, cultural ou espiritual — é colocada em questão.

 

10. CONCLUSÃO

A história da música evidencia que o fenômeno musical não pode ser reduzido a uma sucessão de estilos, técnicas ou períodos estéticos. Desde suas origens, a música se apresenta como linguagem estruturante da experiência humana, profundamente vinculada às formas de organização social, às práticas religiosas e à busca por significado. Mais do que expressão artística, ela constitui um modo de conhecer, interpretar e habitar o mundo.

Nas civilizações antigas, a música desempenhou funções que ultrapassam o campo estético. Na Mesopotâmia, operava como mediação entre o humano e o divino; em Israel, integrava-se à memória da aliança e à resposta litúrgica à revelação; no Egito, participava da manutenção da ordem ritual e cósmica; na Grécia, tornou-se objeto de reflexão filosófica, associando-se à matemática, à ética e à formação do caráter. Em todos esses contextos, a música não era autônoma, mas inseparável das estruturas simbólicas e espirituais das sociedades.

No cristianismo, essa dimensão é aprofundada e reorganizada. A música não apenas acompanha o culto, mas participa ativamente da transmissão da fé, da formação comunitária e da construção da memória teológica. A tradição medieval, longe de representar um período de estagnação, estabelece fundamentos decisivos para a música ocidental, ao desenvolver a notação, sistematizar o ensino e consolidar práticas litúrgicas que moldaram séculos de produção musical.

Do Renascimento ao Romantismo, a música ocidental revela um movimento contínuo de tensão entre forma e expressão. O refinamento da polifonia, a emergência da tonalidade, a racionalização formal e a posterior valorização da subjetividade indicam que cada período musical responde a uma determinada compreensão do ser humano e de sua relação com o mundo. A música, nesse sentido, não apenas acompanha a história, mas a interpreta e a revela.

No século XX, essa dinâmica atinge um ponto crítico. A ruptura com a tonalidade e a multiplicidade de linguagens não devem ser compreendidas apenas como inovação estética, mas como expressão de uma crise mais ampla, marcada pela fragmentação cultural e pela perda de referenciais unificadores. A pluralidade musical desse período reflete uma modernidade em que ordem, sentido e unidade já não podem ser pressupostos, mas precisam ser constantemente reconstruídos.

Diante desse percurso, torna-se evidente que a música raramente é neutra em seus usos sociais, culturais e religiosos. Ela forma sensibilidades, orienta percepções, estrutura afetos e participa da construção de visões de mundo. Por essa razão, sua análise exige não apenas descrição histórica, mas discernimento crítico.

Em perspectiva teológica, a música revela-se como espaço de tensão e possibilidade. Pode servir à adoração, à memória da revelação e à edificação comunitária, mas também pode ser instrumentalizada por dinâmicas de poder, consumo e manipulação afetiva. Reconhecer essa ambivalência é condição para uma abordagem madura e responsável.

Assim, a história da música confirma a tese central deste estudo: a música não é um fenômeno periférico, mas uma linguagem fundamental por meio da qual a humanidade organizou o som para interpretar a realidade, expressar sua interioridade e responder, de diferentes maneiras, ao mistério do sagrado. Compreendê-la, portanto, não é apenas estudar a evolução de formas sonoras, mas acessar uma das dimensões mais profundas da experiência humana, onde estética, cultura e transcendência se encontram e se tensionam.

 

REFERÊNCIAS

 

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.

 

BLACKING, John. How musical is man? Seattle: University of Washington Press, 1973.

 

BROWN, Howard Mayer; STEIN, Louise K. Music in the Renaissance. 2. ed. Upper Saddle River: Prentice Hall, 1999.

 

BURKHOLDER, J. Peter; GROUT, Donald Jay; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. 9. ed. Lisboa: Gradiva, 2019.

 

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MASSARIN, Paulo. A origem da música e sua dimensão teológica: etimologia, cultura, escritura e tradição cristã. Disponível em                                               < https://profpaulomazarem.blogspot.com/2026/04/entre-memoria-tempo-e-escolha-uma.html > Acesso em: 26 abr. 26.

 

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[1] Reitor da Faculdade Mais de Cristo. E-mail: pauloreligiologo@icloud.com

 

[2] O termo neuma deriva do grego neûma (νεῦμα), que significa “gesto” ou “aceno”, indicando sua função original como representação gráfica do movimento melódico. Utilizados na Idade Média, especialmente no contexto do canto gregoriano, os neumas não indicavam com precisão a altura das notas, mas apenas o contorno da melodia, dependendo, portanto, da tradição oral para sua correta execução. Sobre o tema, ver: HOPPIN, Richard H. A música medieval. São Paulo: Edusp, 1998; GROUT, Donald Jay; PALISCA, Claude V. História da música ocidental. Lisboa: Gradiva, 2007.

 

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