O CRISTÃO E A POLÍTICA
Paulo Massarin[1]
O meu Reino não é deste mundo; se o meu Reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu Reino não é daqui. João 18.36
Toda reflexão séria acerca da relação entre o cristão e a política, título deste simpósio, precisa começar por esta afirmação de Jesus diante de Pilatos. Não porque ela encerre tudo o que o Novo Testamento ensina sobre a vida pública, mas porque ela estabelece o fundamento a partir do qual toda participação política do cristão deve ser compreendida.
Considerem que as palavras do Senhor foram pronunciadas em um dos momentos mais decisivos de seu ministério terreno. Além disso, é muito importante lembrar que Jesus estava diante do representante máximo do Império Romano na Judeia, e foi interrogado sob a acusação de pretender tornar-se rei.
O curioso é que a preocupação de Pilatos não era teológica, e sim política. E caso, Jesus reivindicasse um reino nos moldes das revoltas messiânicas que periodicamente surgiam contra Roma, a sua condenação seria imediata.
No entanto diante da questão apresentada ao Senhor, a resposta inequívoca é:
“O meu Reino não é deste mundo[2].”
E aqui eu peço muita atenção de todos os senhores. Porque essa afirmação, exige uma leitura cuidadosa.
Infelizmente ao longo da história, essa declaração de Jesus, foi frequentemente interpretada como se Cristo estivesse estabelecendo uma completa separação entre o Reino de Deus e a realidade histórica, como se a fé cristã dissesse respeito apenas ao mundo espiritual, permanecendo indiferente às estruturas sociais, culturais e políticas da existência humana.
Entretanto, essa interpretação não encontra respaldo no texto. Primeiro porque Jesus não disse que o seu Reino não atua neste mundo. Tampouco disse que seu Reino não produz efeitos concretos na história. O que Ele afirmou e continua afirmando por sua palavra é que seu Reino não procede deste mundo. A declaração é protológica, ou seja, a origem de sua autoridade não está nas estruturas políticas humanas.
O reino de Deus não nasce das urnas, não deriva da força militar, não resulta de revoluções populares, não depende de instituições estatais nem encontra legitimidade nos mecanismos pelos quais os reinos terrenos se estabelecem. O reino de Deus é metafísico, sua origem é transcendental, porque sua autoridade procede do próprio Deus. É um Reino que entra na história, transforma a história e julgará a história, sem jamais depender da história para ser o que É.
O REINO DE DEUS NÃO NASCE DAS URNAS.
· Porque as urnas podem escolher governantes, mas não pode inaugurar o Reino de Deus.
· O Congresso pode aprovar leis, mas não produz novo nascimento.
· Tribunais podem proteger direitos, mas não regeneram corações.
A política possui enorme importância, mas possui limites. E reconhecer esses limites não diminui sua relevância. Ao contrário, coloca-a exatamente no lugar que lhe pertence.
Contudo com isso, não queremos dizer que o cristão deve ser apolítico. Porque apolítico ninguém É, como dizia Aristóteles o homem é um animal político e eu acrescentaria religioso também.
É POLÍTICO porque ninguém vive sozinho em uma ilha isolada. Aliás, quando ouvimos a palavra “política”, quase imediatamente pensamos em eleições, candidatos, partidos, campanhas eleitorais ou disputas ideológicas.
Mas política é muito maior do que isso. A palavra está relacionada à ideia grega de pólis, isto é, a cidade, a comunidade organizada. Assim, política, em seu sentido mais fundamental, diz respeito à forma como seres humanos organizam sua vida coletiva.
Política está presente quando discutimos educação, segurança pública, saúde, tributação, liberdade religiosa, proteção da vida, organização econômica e todas as demais estruturas responsáveis pela vida comum. Tudo isso é política porque tudo isso diz respeito à maneira como uma sociedade organiza sua existência.
Logo,
· votar é política;
· discutir segurança pública é política.
Ninguém que se converte a fé cristã tem a sua cidadania anulada em detrimento de suas convicções religiosas. Portanto a questão não é se a “Igreja deve falar de política” ou se “o cristão pode falar de política?” E sim, “como o cristão pode e deve falar de política!”.
Além disso ...
Quando olhamos para os números das últimas eleições brasileiras, percebemos que essa separação, pelo menos do ponto de vista sociológico e eleitoral, está longe de ser tão simples.
Nas eleições gerais de 2022[3], por exemplo foi realizado um levantamento pelo Inesc[4], com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e ali foi identificada 752 candidaturas que utilizaram no nome, algum tipo de referência religiosa.
A distribuição dessas candidaturas foi a seguinte:
· 428 pastores e pastoras;
· 94 irmãos e irmãs;
· 71 missionários e missionárias;
· 44 bispos e bispas;
· 12 mães;
· 11 pais;
· 10 apóstolos e apóstolas;
· 5 padres;
· 4 capelães;
· 2 freis. (INESC)
Dois anos depois, nas eleições municipais de 2024, os brasileiros voltaram às urnas para escolher prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.
O INESC aplicou a mesma metodologia de 2022, o Inesc/CommonData e para a surpresa de todos, houve um salto pinacular. Foram identificadas 8.006 candidaturas com referências religiosas no nome de urna, em um universo de aproximadamente 454 mil candidaturas. Cerca de 96% delas disputavam uma vaga de vereador. (INESC)
Entre os principais títulos encontrados destacaram-se:
· 4.215 candidatos identificados como pastor ou suas variantes;
· 2.849 identificados como irmão;
· 461 missionários e missionárias;
· 154 bispos e bispas;
Portanto, talvez a pergunta correta não seja: “O cristão deve participar da política?”
A pergunta mais importante é: “Como o cristão deve participar da política sem transformar o Evangelho em instrumento de poder, e sem transformar a autoridade espiritual em capital eleitoral?”
É exatamente sobre essa reflexão que queremos conversar.
A Bíblia inteira fala de justiça, governo, autoridade, leis, reis e nações, tributos[5], e isso passa pelo campo político.
A Bíblia nunca foi apolítica
· José administrou o Egito.
· Daniel governou na Babilônia.
· Neemias é governador.
· Ester influencia o rei.
· João Batista confronta Herodes.
· Paulo apela para César.
- José de Arimateia[6], membro do Sinédrio, usou sua posição de influência para pedir a Pilatos o corpo de Jesus e providenciar seu sepultamento digno (Mc 15.43–46).
· Jesus nasce sob o Império Romano.
A Bíblia nunca separou fé da realidade pública. Ela apenas recusou transformar o Reino de Deus em um projeto político. E convenhamos essa é a grande tentação que todos nós enquanto cristãos precisamos rejeitar, uma vez que muitos confundem a participação do cristão na política com a politização da fé.
O cristão deve e pode participar da política de muitas maneiras.
· Pode ser eleitor.
· Pode ser vereador.
· Pode ser deputado.
· Pode ser prefeito.
· Pode ser juiz.
· Pode ser professor.
· Pode ser servidor público.
· Pode exercer qualquer função legítima.
Mas nenhuma dessas funções pode substituir sua identidade mais profunda, pois antes de ser cidadão de qualquer nação, ele continua sendo cidadão do Reino de Deus.
É justamente quando essa ordem é invertida que nasce aquilo que chamamos de politização da fé. E participar da política não é o mesmo que politizar a fé. Da mesma forma que Habeas Corpus e Corpus Christi não são a mesma coisa.
Politização da fé ocorre quando a política deixa de ser EFEITO de algo que deveria ser produzido espontaneamente pelo EVANGELHO e passa a ser CAUSA e militância partidária. Ocorre quando a identidade cristã começa a ser construída não mais a partir de Cristo, da Cruz ou do evangelho, e sim a partir de uma ideologia, de um partido, de um líder ou de um espectro ideológico.
Ocorre quando a fé se torna um instrumento a serviço de utopias ou distopias[7] Quando a fé é politizada comete-se USURPAÇÃO DO SAGRADO. De um sagrado que não se relaciona mais com Deus, nem sua soberania, mas com o Estado. Quando isso ocorre:
· A ideologia ocupa o lugar da verdade e nisso reside o perigo da idolatria ideológica.
A Bíblia ensina que idolatria não é apenas adorar imagens esculpidas, mas substituir Deus por qualquer coisa (Rm 1. 25) — e isso inclui ideias, causas e até mesmo coisas boas.
Nenhum candidato, por melhor que seja, está apto para sentar-se na cadeira que pertence exclusivamente a Jesus. E toda vez que a política passa a prometer aquilo que somente Cristo pode cumprir, ela está reivindicando para si uma função messiânica que jamais lhe pertenceu. O Estado pode administrar a sociedade; somente Cristo pode redimir o ser humano. Quando a política assume o papel de salvadora, ela deixa de ser apenas um instrumento de governo e passa a se tornar um ídolo.
Uma coisa é a Igreja na política; outra, muito diferente, é a política na Igreja. A Igreja na política significa que cristãos, guiados pelos valores do Evangelho, participam da vida pública como cidadãos. Eles votam, fiscalizam, debatem, exercem cargos públicos e contribuem para a construção do bem comum, sempre submetendo suas convicções à Palavra de Deus.
A política na Igreja, porém, ocorre quando interesses partidários passam a ocupar o espaço que pertence ao Evangelho. Acontece quando o púlpito se transforma em palanque, quando a identidade cristã é substituída pela identidade ideológica, quando a comunhão é rompida por disputas eleitorais e quando Cristo deixa de ser o centro para dar lugar a partidos, candidatos ou projetos de poder.
Em outras palavras, é legítimo que o cristão leve sua fé para a política; o que não é legítimo é trazer a lógica partidária para dentro da Igreja.
A tradição rabínica interpreta a destruição do Segundo Templo (70 d.C.) não apenas como consequência da conquista romana, mas também como resultado de uma crise espiritual interna fomentada por disputas político-partidárias (entre zelotes, sicários e outros grupos) entre os judeus.
No Talmude Babilônico (Yoma 9b), os rabinos afirmam que, havia estudo da Torá, observância religiosa e obras de caridade, mas o שִׂנְאַת חִנָּם (sinat chinam), expressão hebraica que significa “ódio gratuito” ou “ódio infundado” foi mais forte.
O Senhor Jesus há tempos advertiu que: “Todo reino dividido contra si mesmo ficará devastado, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt 12.25).
Aplicado à vida da Igreja, o paralelo serve como advertência pastoral e profética.
Quando disputas ideológicas, partidárias ou faccionais substituem a comunhão produzida pelo Evangelho, a unidade do corpo de Cristo é comprometida.
Assim, a nossa missão enquanto Igreja não é reproduzir as polarizações da sociedade, mas testemunhar a reconciliação que há em Cristo (2Co 5.18–20; Ef 2.14–16), preservando a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4.3).
Não obstante, a Igreja existe para anunciar Cristo a todos — aos que votam à direita, à esquerda, ao centro ou em qualquer outra posição. O compromisso da Igreja é com o Reino de Deus, e não com qualquer projeto de poder terreno.
O cristão pode ter posição política. A Igreja, porém, deve permanecer fiel à sua missão profética: anunciar o Evangelho, discipular pessoas e proclamar a supremacia de Cristo sobre todos os governos e ideologias.
O erro de Israel continua sendo o nosso.
Esse fenômeno não é novo. Em 1 Samuel 8, Israel pede um rei. O pedido parecia legítimo. Afinal, todas as outras nações possuíam reis. Mas Deus revela a Samuel o verdadeiro problema. “Não rejeitaram a ti, mas a mim, para que eu não reine sobre eles.” (1Sm 8.7)
Israel não estava apenas pedindo uma nova forma de governo. Estava deslocando sua esperança. Antes, sua segurança estava em Deus. Agora, passava a estar numa instituição humana. É exatamente isso que acontece quando esperamos da política ou de um determinado candidato, aquilo que somente Deus pode oferecer
Em suma, como cristãos temos uma responsabilidade...
Defendemos a vida no ventre, mas o Evangelho nos obriga a perguntar também pela vida depois do ventre. Defendemos a família, mas precisamos perguntar pelas famílias sem comida, sem saneamento, sem escola e destruídas pelas drogas.
Defendemos a liberdade da Igreja, mas precisamos perguntar se usamos essa liberdade para defender somente nossos próprios interesses ou para nos tornarmos voz daqueles que não têm voz.
No hebraico, não existe uma palavra distinta para “voto” como nós temos em português. A expressão utilizada é kol (קוֹל), que significa voz ou som. Assim, todas as vezes que um israelense exerce a sua cidadania, ele está dando o seu Kol, ou seja, está dando a sua voz a alguém.
Precisamos aprender que se o voto é uma voz, então Deus nos chama, como igreja, a usar a nossa voz com responsabilidade.
· Somos voz quando defendemos a vida.
· Somos voz quando denunciamos a corrupção.
· Somos voz quando protegemos os vulneráveis.
· Somos voz quando promovemos a justiça.
· Somos voz quando recusamos a mentira, a violência e a manipulação.
O cristão não entrega apenas um voto; ele empresta a sua voz aos valores do Reino de Deus.
Toda geração decide que voz deixará para a próxima. Alguns usam a voz para dividir. Outros, para manipular. Outros, ainda, para promover interesses pessoais. Mas os discípulos de Cristo usam a sua voz para testemunhar a verdade, promover a justiça, defender o próximo e glorificar a Deus.
Deus nos chama para sermos uma voz.
É curioso que, no hebraico, João Batista aparece como o cumprimento da profecia de Isaías 40.3: “Voz do que clama no deserto.” João não é apresentado apenas como um homem; ele é apresentado como uma voz.
Uma voz que anunciava o Reino de Deus e preparava o caminho do Senhor.
Que tenhamos, portanto, a consciência de que, quando votamos, estamos dando a nossa voz àqueles que escolhemos para nos representar. E que essa voz seja sempre coerente com os valores do Reino de Deus, com a justiça, com a verdade e com o compromisso de amar o próximo.
Conclusão
O cristianismo não é uma ideologia, mas uma revelação viva e eterna de Deus em Cristo. Ele não se curva às categorias políticas, mas as transcende, corrigindo-as e desafiando-as.
Jamais esqueçamos, Deus não tem partidos e não vota. E Jesus não disputa eleições, Ele reina, e ponto. O Evangelho não é de direita nem de esquerda, mas de Jesus. O Evangelho não se negocia, se anuncia e a fé não é arma ideológica, é revelação divina.
Que Deus abençoe o Brasil...
REFERÊNCIAS
BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2011.
CORTELLA, Mario Sergio; RIBEIRO, Renato Janine. Política: para não ser idiota. 9. ed. Campinas, SP: Papirus 7 Mares, 2012. (Coleção Papirus Debates).
FRESTON, Paul Charles. Religião e política, sim; Igreja e Estado, não: os evangélicos e a participação política. Viçosa, MG: Ultimato, 2006.
JOSEFO, Flávio. Guerra dos Judeus contra os Romanos. Tradução de Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
KOOK, Abraham Isaac HaCohen. Luzes da Santidade (Orot HaKodesh). São Paulo: Sêfer, diversas edições.
NEUSNER, Jacob. O Judaísmo nos Tempos de Jesus: introdução à Mishná e ao Talmude. São Paulo: Paulus, 2004.
SAFRAI, Shmuel; STERN, Menahem (Orgs.). O Povo Judeu no Século I: Contexto Histórico do Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1978.
SCHÜRER, Emil. História do Povo Judeu no Tempo de Jesus Cristo. São Paulo: Paulus, 2004. 2 v.
STEINSALTZ, Adin. O Talmude Essencial. Tradução de Eduardo Gorog. Rio de Janeiro: A. Koogan, 1989.
TALMUDE BABILÔNICO. Tratado Yoma 9b. Edição bilíngue hebraico-inglês. Brooklyn, NY: Mesorah Publications (Artscroll), diversas edições.
WRIGHT, N. T. Jesus e a Vitória de Deus. Santo André: Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011.
[1] Reitor da Faculdade Mais de Cristo, Teólogo e Pastor. E-mail: pauloreligiologo@icloud.com
[2] O Reino é espiritual, mas seus frutos afetam a vida social e política. Ele confronta injustiças. John Stott
[3] Os brasileiros foram às urnas para escolher presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
[4] Inesc é a sigla para Instituto de Estudos Socioeconômicos, organização da sociedade civil fundada em 1979 e sediada em Brasília. Em parceria com a CommonData, o instituto realizou estudos a partir da base oficial de candidaturas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificando candidatos que utilizaram referências religiosas em seus nomes de urna (como Pastor, Padre, Bispo, Missionário e outros). Assim, os dados primários são do TSE, enquanto a classificação e a análise estatística foram elaboradas pelo Inesc e pela CommonData.
[5] A expressão “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.21; Mc 12.17; Lc 20.25) não estabelece uma separação absoluta entre religião e vida pública, mas distingue as esferas de autoridade. Jesus reconhece a legitimidade da autoridade civil em suas competências, ao mesmo tempo em que afirma a soberania absoluta de Deus sobre a vida humana. O Estado possui autoridade delegada; Deus, autoridade suprema.
[6] O exemplo de José de Arimateia é particularmente relevante porque demonstra que a influência política ou institucional pode ser utilizada para servir aos propósitos de Deus, sem que isso implique a politização da fé. Ele não usou sua posição para promover um projeto de poder, mas para cumprir um ato de coragem, piedade e fidelidade a Cristo. Isso reforça a tese de que a Bíblia não é apolítica, mas também não transforma o Reino de Deus em um projeto político.
[7] Utopia é a representação de uma sociedade ideal, perfeita e harmoniosa. Distopia, por sua vez, descreve uma sociedade marcada pela opressão, pela perda da liberdade e pela degradação humana, frequentemente como consequência da tentativa de impor uma utopia por meios autoritários.
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