RESENHA DO FILME TERRA VERMELHA






















Terra Vermelha. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=nOCFZWF_Wb4> Acesso: 09 Jun. 15
[1]Paulo R. S. Mazarem



       O Filme “Terra Vermelha" de 2008, direção e Roteiro do chileno Marco Bechis, bem como os demais roteiristas Luiz Bolognesi, Lara Fremder foi produzido com a finalidade de dilucidar a realidade enfrentada pelos índios Guarani- Kaiowá e descrever a perda espacial de seu território no Mato Grosso do Sul, expropriado pelos Juruás (homens Brancos).

       A co-produção ítalo-brasileira Terra Vermelha, é uma obra com teor político, e torna-se quase que indispensável por assim dizer para quem deseja compreender a questão e realidade indígena de nosso país. Ele descreve como a nova geração de índios, isto é, os jovens reagem diante de um novo sistema que lhe é imposto, onde seu trabalho, cultura e religião não possuem valor algum, efeitos esses decorrentes das apropriações indébitas de terras que em outrora eram suas por nascimento, para não utilizar o termo “direito” que nesse caso, não era um saber do conhecimento indígena, bem como muitos outros saberes cartesianos.

      A consequência nessa desterritorialização provoca no espirito comunitário indígena como um todo uma espécie de angústia psíquico-social, pois expropriados e sem local para caçar e viverem são forçados a viverem a beira das estradas e a depender do sistema capitalista que os objetiviza comprando sua mão de obra em troca de alguns trocados que mal dá para gerir a subsistência dos ali acampados. O filme relata que essa situação, (situação de muitos índios) levou os índios a formarem uma base de resistência na proximidade das fazendas, local (is) esse (s) que eram espaços seus e ali, organizarem-se para retomar os espaços perdidos.

      No entanto, a condição econômica lhes é desfavorável o que leva muitos deles a se retirarem da base à procura de empregos temporários, isso para que não pereçam de fome. A imobilidade dos índios não é suficiente para avanços políticos e geográficos e muitos deles acabam se tornando alcoólatras como é o caso de Nadio (Chefe da tribo), a tentação pelo êxodo é maior que a resistência estática e a vontade de existência supera o ativismo, o que faz com que alguns deles saiam do campo, que outrora era mato, e tenham contato com a considerada civilização produtora de bens de consumo. O filme ainda mostra a [2]reificação e o fetiche exercido pela mercadoria sobre os jovens indígenas que no afã de adquirir certos produtos não sabem que estão por se inscrever em uma nova modalidade social. É o caso do filho de Nadio que se suicida, quando retorna para o lar depois de uma longa [3]jornada de trabalho sem o dinheiro e com um par de tênis branco nos pés.  

      O filme mostra uma reterritorialização forçada dos indígenas nos espaços a beira da estrada, ao lado das cercas do dono da fazenda, no caso o chamado “Moreira”, filho do fazendeiro que ocupara aquelas terras inicialmente, local este que o próprio Moreira reclama no filme como sendo território seu, cuja localização já está inscrita como sendo da terceira geração o que inclui obviamente seus filhos, no caso sua filha como é por ele mencionada.

       Porém, diferente de Moreira, os índios mostram que sua relação com a terra não é a de posse como o homem branco ab-roga para si, quebrando a lógica cartesiana os índios, mostram que a terra tem a mesma dignidade que eles, razão essa pela qual eles se sentem parte dela.

       O filme ainda registra que a perda da floresta ancestral e o confinamento em lugares reducionais, só servem para reafirmar a tese do quanto à noção de espaço e terra difere do índio para o homem branco.

       Como é óbvio o diretor não poderia deixar para trás aquilo que além da terra integra o índio ao convívio comum, no caso sua crença religiosa. O Xamã da tribo ao perceber em um jovem índio características de um futuro sucessor, inicia-o e começa a espiritualizar lhe, ensinando-lhe a rezar e processualmente incutindo-lhes as práticas de suas crenças religiosas, transmitidas de geração para geração. No entanto, os acontecimentos que acompanham o jovem Xamã servem para mostrar o quanto sua vocação religiosa é falseada, isto é, colocada sob teste (enquanto tenta meditar e entrar em contato com os espíritos e Ñhaderu), pela jovem adolescente filha do fazendeiro, que o seduz com sua beleza e com suas posses, no caso, uma moto que será a grande instigadora pela curiosidade do jovem iniciado Xamã a fim de desfrutar das aventuras alternativas propiciadas pela inventividade do homem capitalista.

       O filme ainda descreve o ascetismo que um Xamã deve possuir para alcançar certas dádivas da divindade, no caso Ñhaderu, divindade principal que encabeça as demais divindades no cultuo guarani. O que propõe-nos afirmar que os índios guaranis, são henoteístas e não politeístas, como é o caso dos africanos que acreditam em outros deuses (orixás), mas reconhecem uma divindade suprema, a saber Olorum ou Olodumaré. Nesse caso, tanto Ñhaderu como Olorum não são divindades subalternadas, ou hierarquicamente semelhantes em posição como as demais divindades, de fato elas compõem no panteão um lugar de destaque em ambas as culturas religiosas.

       Enfim, o chefe da tribo é assassinado por causa de sua resistência, o que nos leva a presumir que sua morte, é uma morte arquetípica, isto é, ele é emblemática por descrever a morte de todos aqueles índios que resistiram à dominação e a desterritorialização causadoras de um epistemicidio que ecoa em todas as dimensões da vida ecosófica dos índios.
       Portanto, devo dizer que para uma melhor análise e por certo uma rememoração por todos aqueles que assistiram ao filme seguem aqui o elenco do filme Terra Vermelha. O Elenco que é composto por Claudio Santamaría - Lo Spaventapasseri; Alicelia Batista Cabreira – Lia; Chiara Caselli – Fazendeira; Abrisio Da Silva Pedro – Osvaldo; Ademilson Concianza Verga (Kiki) – Ireneu; Ambrosio Vilhalva – Nadio;  Mateus Nachtergaele – Dimas; Fabiane Pereira Da Silva – Maria;  Nelson Concianza - Lo Sciamano; Poli Fernandez Souza – Tito; Leonardo Medeiros – Fazendeiro; Inéia Arce Gonçalves - La Cameriera e Eliane Juca Da Silva – Mami.

By Paulo Mazarem




[1] Bacharel em Teologia (Fatecamp), Graduado em Teologia Sistemática (Facasc) e Graduando em Ciências da Religião (USJ).
[2] Reificação de acordo com o filósofo Paulo Ghiraldelli parafraseia a concepção Marxiana dizendo que reificação ocorre todas as vezes que uma coisa criada passa a dar ordens àquele que o criou no caso o homem. Isso significa coisificação do sujeito e subjetivização do objeto.
[3] O suicídio do jovem filho do líder da tribo leva o espectador num primeiro momento sugerir que a morte, isto é, seu suicídio foi causado pela repressão do pai, o que nos leva para uma segunda questão, como já colocada aqui de pensar que o causa não é o consumo e sim a Desterritorialização desse índios de seu lugar.

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