LEPROSÁRIO EXISTENCIAL


A lepra é chamada hoje de hanseníase, nome com a qual atualmente designamos o complexo clinico de sinais e sintomas causados pelo “Mycobacterium Leprae”.

Até a década de 40 não havia cura para a lepra. A saúde pública optava pelo confinamento de tais indivíduos em lugares isolados.     E tais lugares eram chamados de leprosário. Isto, por que o leproso representava uma ameaça pública. A comunidade aventava com a justificativa de proteger as pessoas saudáveis e de impedir a viralidade ou o contágio, expulsando a pessoa doente para fora do agrupamento coletivo.

A tradição judaica-cristã, a Bíblia, por exemplo no período veterotestamentário, nos informa que os leprosos localizavam-se do lado de fora do arraial (sociedade) coisa que Novo testamento vem apenas corroborar, mostrando que tal prática era um fato social infrangível.

É claro que os meios convencionais na época (justificavam-se necessários), para impedir a propagação de uma chaga como aquela, e para isso só por meio da exclusão do individuo contaminado que se poderia garantir a saúde física e psicológica de todo grupo.

Concorde você ou não, a lei (sagrada ou profana) apenas perpetua por meio de constituições normativas o que na maioria das sociedades, tribos, agrupamentos (em todos os tempos) foi legitimado, isto é, à exclusão sempre foi algo praticado queira pela via religiosa ou pela via legal, o que quero dizer é que toda diferença sempre foi eliminada, sacrificada, queimada e até aniquilada. Hoje a sociedade atual ainda vê infelizmente o diferente pela ótica da exclusão e não da alteridade.

Se no passado as manchas na pela caracterizavam o leproso como diferente, assim o individuo hodierno (que não se encaixa aos moldes de uma sociedade impositiva) quase sempre é sinalizado pela via do estigma e condenado da mesma forma a exclusão, porém uma exclusão refinada, simbólica e marginalizada.

Quem conhece um pouquinho de lei sabe que todas as civilizações foram construídas e sustentadas em normas, regras, leis, e essas leis criaram e ainda criam limites e proibições. 

Para se ter uma idéia nos tempos medievais, a sacralização da lei impulsionava muitas vezes o sacerdote a ler o ritual de sepultamento do leproso antes de ele ser expulso da cidade.
De fato era horrível ser condenado à vida de leproso.

Na frança o tratamento aos leprosos eram tão desumanos que queimavam-se vivos os leprosos dentro de suas casas com todos os objetos pessoais. A idéia que se tinha de combater a lepra com fogo ainda existia no Séc. XX no Brasil.

Porém com o passar do tempo surgiram cientificamente os remédios e a epidemia de lepra desaparece.
Só não desaparece o hábito que adquirimos de excluir, de isolar aquilo que nos incomoda, aquilo que nos perturba, isso nunca desapareceu e jamais desaparecerá.

A herança social do leprosário é uma forma de ver, de pensar, que sempre exclui, que sempre confina, que sempre isola. 

Por esse motivo os rabiscos até aqui registrados trabalham com a temática e ideologia de que cada individuo, retém dentro de si um leprosário existencial. Destarte que o pior leprosário não é aquele em que os outros nos colocam por sermos diferentes, mas sim aquele (leprosário) que nós mesmos nos colocamos por não nos sentirmos semelhante e iguais a maioria.

Quantos são os que  se sentem excluídos por que são obesos, não se encaixando nas regras e nas ditaduras da beleza, outros se sentem excluídos por serem pobres, por não consumirem bens, por não poder entrar em um shopping center e gastar, já outros se sentem excluídos por que são negros tendo que enfrentar na universidade as cotas raciais, outros se sentem excluídos por não conseguirem credibilidade dado ao seu passado imoral e iníquo.

Nesse leprosário vazio de nossa transitória existência abrigamos aquilo que repugnamos e até aquilo que não queremos ser. Sua origem percorre nossa ontologia, desde os traumas de infância a pré concepções herdadas culturalmente.

Enfim, existem leprosários que não são visíveis, esses (a meu ver) são os leprosários que mais separam, que mais confinam, que mais isolam.
Esses leprosários (onipresentes),  estão em todos os lugares, mas ao mesmo tempo não estão em lugar algum, pois não pertencem a nenhuma localização geográfica, são leprosários inconcretos, itinerantes que estão aí, mas que podem não estar.

Isto é, ele está e não está, está no coletivo, mas não está, está nas faculdades, mas não está, nas escolas, nos hospitais, nas ruas, nos mercados, nas igrejas, mas não está. Como disse sua onipresença é cosmológica, porém abstrata, você não a vê, mas ela existe.


Paulo Mazarem
03 Nov. 2011
Florianópolis

Comentários

  1. Gostei do Documentário.Excelente explicação.
    Continue nos trazendo mais informações,de outros assuntos pois,tenho certeza será de grande valia para todos.
    Que Deus o abençoe e o ajude em sua tragetória.
    Sucesso!!!
    Do amigo e irmão em Cristo:Jair Alves

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

ALIMENTAÇÃO DOS TEMPOS BÍBLICOS

RESENHA DO FILME TERRA VERMELHA

RELIGIOSIDADE NA ERA PALEOLÍTICA/NEOLÍTICA