ANÁLISE DO TERMO CULTURA E OS PROCESSOS DE TRANSFORMAÇÕES SOCIOCULTURAIS E METODOLÓGICOS EM DARCY RIBEIRO

Curso: Ciências da Religião: Bacharelado e Licenciatura Plena em Ensino Religioso.
Disciplina: Introdução à Antropologia 
Período letivo: 2013/2  
Aluno: Paulo Mazarem 






                                          

1)     A partir das discussões sobre o conceito de cultura presente nos textos, desenvolva uma reflexão sobre os modos de compreender o  aspecto do Gênero?


    Antes de abordar à questão propriamente dita gostaria de tecer um breve comentário sobre o conceito “cultura” precipitando-me à re-lembrar aqueles que trafegam pelo universo antropológico, (sabendo é claro que é do conhecimento cientifico) que toda reflexão é um ato de ressignificação quando aliada a vontade de saber epistemológico. Talvez, seja por ess motivo que me atreverei ou melhor me arriscarei a apresentar um neo-modelo.                                       
     Em suma, tenho que dizer que “cultura” é uma tarefa de exercício intelectual, de contextualização e de desconstrução de todo e qualquer hermetismo dogmático e reducionista que viole a possibilidade de uma compreensão ubíqua do termo dentro dos limites de sua vivência e de sua práxis uniétnica e subcultural.

     Partindo então dessa análise há de se ressaltar que o termo “cultura” vulgarizou-se diante dessa polimorfia de interpretações sendo que na maioria das vezes serve de pretexto, trato e mal-trato de uma particular cultura que procura não só definir seu conceito, mas se impor como hegemônica definhando por esse motivo à partir de sua própria visão cultural e "modus pensandi" o significado antropológico do termo "cultura". 

Ora é aqui que recai nossa atenção, pois quando postas em comparação objetivamente lado a lado o que deve prevalecer não é a pré-noção de cultura inferior ou superior e sim sua distinção, nesse segundo momento seria responsável obviamente destacar não mais o termo cultura, mas sim culturas. Mas isso já é uma outra discussão.

O que quero apontar nesse opúsculo é o fato de que uma idiossincrasia maturada além de oferecer ferramentas não só etimológicas para analisar e localizar o instrumento ótico de investigação holístico, (totalidade) à respeito do significado, oferta também uma vez sinalizada pela neovisão compreensiva, novas percepções e leituras para à contemplação exata do significado e do significante estrutural do termo.

Quando essa toupeira ideológica sobe para a superfície é possível então perceber que é nesse interstício que se aloja a concepção de re-ordenação do termo. 
Pois é de se admitir que uma cultura, pode em sua vontade de poder suplantar outra cultura a partir dos pressupostos primariamente simbólicos ou pelo capital de conhecimento histórico que concentra sobre si.
       Como bem ressaltou DAMATTA (1986, p.1, grifo nosso):

“cultura hodiernamente é uma palavra usada para classificar as pessoas e, às vezes, grupos sociais, servindo como uma arma discriminatória contra algum sexo, idade, etnia ou mesmo sociedades inteiras”.

       Como já dito o que queremos desconstruir é a banalização do termo “cultura” que em sua vertigem está sempre associada aquela concepção de erudição, isto é tem cultura quem é enciclopédico ou erudito.    
        É por essa razão que a antropologia parte em direção de modelos que procuram explicar através de múltiplas leituras o significado imbrincado desse conjunto de hábitos, valores, crenças, artes, ciências e dos modos de percepção de hábitos de pensamento e de ação que repousa sobre o conceito.
       Tomemos por exemplo a questão do gênero uma grande conquista no âmbito feminista Segundo Miriam Grossi, os estudos de gênero são uma das consequências das lutas feministas (libertárias) dos anos 60, nessa década a mulher aparece como indivíduo, um sujeito moral inconformado com o seu papel na sociedade e reivindicando uma posição política, ou seja, os direitos sociais, educação, trabalho e respeito.
                                                                                                                                            
Esses movimentos lutavam por uma vida justa e igualitária. Por isso se admite que a problemática do gênero surja dentro desses movimentos, pois se percebe que as mulheres tem um papel secundário ali dentro.

      Porém é interessante ressaltar que a história conservou intacta e indelével em algumas sociedades os legados da mulher e de sua emancipação em relação ao sistema patriarcal analisem os lícios, que segundo o grande historiador e poeta Heródoto (484-424 A.C), se diferenciava dos demais povos pelo seu “Modus vivendi”. Isso porque a Lícia era uma sociedade matriarcal, os filhos tomavam o nome da mãe e não do pai, como ele mesmo ressalta, por exemplo: se uma mulher livre desposasse um homem escravo, seu filhos seriam cidadãos integrais; mas se um homem livre desposasse uma mulher estrangeira, ou vivesse com uma concubina, embora fosse ele a primeira pessoa do Estado, os filhos não teriam qualquer direito de cidadania.  

Esse paradigma cultural não estava para negócio e não era cambiável. O que implica dizer que os lícios em hipótese alguma trocariam os seus costumes por de alguma outra nação por mais sedutor que fosse. Se contextualizarmos esse registro vamos perceber que no Brasil, em 2006 um percentual de mulheres chefes de família cresceu 79% em dez anos, passando de 10 milhões em 1996 para 18 milhões.  Na China contemporânea, no povoado mosuo de 30 mil pessoas, às margens do Lago Lugu, há uma sociedade matriarcal, aonde não existem os papéis de pai ou marido. A propriedade particular e o nome da família são passados de mãe para filha; os homens fazem as atividades domésticas e são comandados pelas mulheres. Na Indonésia, o povo de Minangkabau é da parte oeste da ilha e a sociedade é matriarcal. A propriedade segue a linhagem de mãe para filha e o sobrenome é sempre o materno. A manufatura é principal atividade dessas artesãs que fazem sarongues bordados com fios dourados.    
                                                             
Portanto é valido lembrar que o homem, (referência exclusiva ao gênero masculino) não é a medida de todas as coisas e o axioma que prevalecerá é aquele pronunciado por Simone de Beauvoir, “não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres.

Destarte que os papéis sociais tendo como análise tal perspectiva é algo cultural e não genético.                                                                                                                                            

  2)     Discorra sobre os processos de transformações socioculturais e os procedimentos teóricos metodológicos oferecidos por Darcy Ribeiro para explicar tais transformações?
  

       Acredito que falar sobre os processos de transformações socioculturais partindo dos teoremas por ele oferecidos é uma missão nada simples. Porém há de se sublinhar que Darcy ribeiro é um homem difícil de caber em alguma definição, até por que sua profunda generosidade com os diferentes conduziram-no para lugares amorfos, esses lugares que não cabem dentro dos esquemas já prontos e como sempre digo definidos.  
No processo civilizatório encontramos Darcy trazendo para o âmbito das discussões os grandes problemas da evolução humana, e aqui, diga-se de passagem, esqueça Darwin, pois nessa obra ele procura entender os processos de desenvolvimento de certos povos e o do retrocesso de outros ditos como atrasados.  Ele então propôs que é através da formulação de um esquema das etapas evolutivas que se dá a possibilidade de uma tipologia para poder classificar os diversos agrupamentos que se uniram para formar as sociedades nacionais americanas de hoje.
        Para uma melhor compreensão da “causa da desigualdade de desenvolvimento dos povos americanos”, Darcy Ribeiro (2000, pág. II) elabora o projeto de uma  obra em cinco volumes, denominado Estudos de Antropologia da Civilização, do qual o Processo Civilizatório se constituiria no primeiro volume.
Nas palavras de Mércio Pereira Gomes, Darcy pretendia “interpretar o Brasil e para isso precisava contextualizá-lo na escala de evolução das sociedades humanas e no desenvolvimento do mundo colonial” (2000, p. 34)

E assim o que Darcy faz é analisar os dez milênios e diacronicamente constatar que as transformações tecnológicas através dos modos de ordenação das relações é fruto de interações simbólicas em dadas culturas, entendida como patrimônio simbólico que se manifesta materialmente e ideologicamente nas sociedades.
O que equivale dizer que a construção do esquema evolutivo em Darcy Ribeiro é oriunda da tecnologia. Que ele então categoriza, classificando neste sentido em oito revoluções tecnológicas, “a Revolução do Regadio, a Revolução Metalúrgica, a Revolução Pastoril, a Revolução Mercantil, a Revolução Industrial e a Revolução Termonuclear, que por sua vez motivariam processos civilizatórios diversos, marcados por diferentes dinâmicas culturais de difusão e aculturação”, conforme (Ribeiro, 1985, p.50.).
E para encerrar os conceitos a respeito das sociedades evoluídas e outras com sendo atrasadas é necessário analisar o conceito de estagnação cultural e de regressão histórica ou cultural, que a meu ver é imprescindível para uma compreensão de um não desenvolvimento sócio cultural. (Ribeiro, 1985, p 57.).

Espero ter atendido a demanda filosófica das questões aqui propostas.

Referências:


DAMATTA, Roberto, Você tem cultura? In: Explorações. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

RIBEIRO, Darcy (1985) O Processo Civilizatório. 8. Ed.Petrópolis, Vozes.

Sociedade Matricarcal. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Sociedade_matriarcal> Acesso em 02. Set.2013.


Paulo Mazarem 
Florianópolis
21 Ago. 2014.

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