A EXISTÊNCIA PRECEDE A ESSÊNCIA


      
    
     


      Esta é a frase emblemática do “filósofo da liberdade”, pois é assim que Jean-Paul Satre ficou conhecido nos círculos filosóficos e acadêmicos pelo mundo. Nascido em Paris, em 21 de junho de 1905 teve desde cedo a influência do avô, Charles Schweitzer, (com quem veio romper por móvitos éticos mais tarde) professor aposentado, que iniciou-o precocemente na leitura literária.
    Da erudição familiar, (pelo menos no que diz respeito ao ambiente onde Sartre pode acumular seu imenso capital cultural) à École Normale Supérieure - Paris, Sartre mais do que uma testemunha de seu tempo foi também aquele que no dizer de Nietzsche proscreveu sua vontade de potência, (ao trazer novamente a consciência humana para centro de todas as coisas), traduzindo para o homem de seus dias, (ainda que deslocado filologicamente daquilo que Nietzsche chamava de “moral de rebanho”), uma filosofia de emancipação, podendo aqui ser vinculada aos proletários  (trabalhadores) dado a sua simpatia pelo socialismo (que mais tarde também romperia) e ao mesmo tempo dado o pensamento burguês meio do qual este emergirá. O fato é que o próprio Sartre conviveu com a burguesia, mas escreveu contra a burguesia, protestando contra o autoritarismo tão bem representado pelas atitudes tradicionalistas de seus contemporâneos e conterrâneos, isso nas décadas de 1950 e 1960 na França, culminando na derrocada do governo conservador e a instauração de um clima mais liberal  em toda França.

A Existência [...]

  Logo, Sartre percebeu que sua vontade de liberdade estava genealogicamente amparada numa espécie de protoexistencialismo que o antecedia, isso por que no século IV a.C Aristóteles já havia feito a pergunta: “Como devemos viver?” Não só Aristóteles, mas Soren Kierkegaard, com tonalidade pré-existêncialista escreve “Ou isto, ou aquilo”, explorando o papel desempenhado pela escolha na moldagem de nossas vidas. Porém, a grande influência no pensamento Sartreano, viera de um filósofo alemão chamado Martin Heidegger que afirmava que o importante é nossa relação com a existência.
  No entanto, é necessário reafirmar que o grande vestígio do pensamento liberal desmitificado de Sartre, vem de Parmênides e Sócrates.
   De Parmênides por que para o pai da ontologia no ocidente o Ser é uno, eterno e imutável e este ser é o pensamento, e de Sócrates por que no diálogo com Eutífron, Sócrates (um divisor de águas da filosofia) vai propor uma ética desdivinizada, isto é, uma ética sem deus (es).
  No diálogo com Eutífron, Sócrates maiêutiza a cada pergunta parideira de novos saberes que ser justo por recorrência a uma divindade é pautar a própria justiça à injustiça da contradição, pois nem os deuses são tão justos assim. Ora, se eles (os deuses) não são justos a ponto de serem paradigmas para o comportamento (ethos) humano, então toda essa valoração, isto é, o modus vivendi humano deve ser pautado por valores humanos e não transcendentais o que equivale dizer que não devemos ser Justos pela subserviência credal ao metafisico e sim justos tendo à própria justiça como justeza (medida).
   Essa ruptura de Sócrates com a crença pré-socrático religiosa garantiu-lhe duas coisas. A primeira foi o cálice de cicuta e a segunda foi o titulo de pai da ética no Ocidente.

Retomando Sartre [...]

    O fato é que a influência de Sartre vinda de Descartes, na verdade é precedida por este, que ressignifica o pensamento grego por meio de uma ontologia pensante, atualizada por Platão (discípulo de Sócrates) e cristianizada por Agostinho que influência o pensamento “Cartesiano”.                 Não esqueçamos que a questão de interesse de Sartre está puramente na liberdade que não é um ser; ela é o Ser do homem, só que aqui não mais no pensamento unicamente, mas na consciência, a consciência que vem a ser existência ou o homem, esse é o ser que É, absolutamente Livre.
    Não obstante, o que pesa ao se pensarmos na influência cartesiana no pensamento Sartreano é a contextualização de uma divisão histórica ocorrida no final do século XVIII pelo filósofo de Königsberg. Basta lembrarmos que até Kant a filosofia era ontológico-metafísica e à partir de Kant reinterpretada para uma filosofia lógico-epistemológica. Destarte que poderíamos hipoteticamente afirmar que Sartre recebe influência de Kant pela perspectiva “epistemológica” (Sapere Aude) e Cartesiana pela via ontológica. Com isso quero dizer que o homem enquanto ser (ontológico) é consciente (epistemológico) de sua condição no mundo, isto é, condenado a ser Livre.


[...] precede a essência. 

    Ora, a existência precede essência para Sartre, exatamente pelo fato de se admitir o nosso bem mais precioso, a liberdade.                                                  Mas, afinal de contas o que é que Sartre quis dizer com existência que precede a essência?                                                                                            
     Para entendermos essa máxima existencialista é necessário relembrar como já dito que Sartre parte da subjetividade pura, isto é, do cogito cartesiano, “Penso, logo Existo”. O que em síntese parafraseando significa que existimos não por causa de nossa finalidade ou essência, nossa existência precede qualquer teleologia, pois quem dá sentido ao fim último, é o homem puramente “eu” (liberdade).

   Como Sartre não está preocupado com metafísica, uma vez que Deus para ele não existe, o que deve nortear o modus vivendi humano é o “eu onipotente e consciente”. É exatamente aqui que recai toda a reflexão ética da psicologia, da religiosidade e do humanismo, porque se Deus não existe como dissera Dostoiévski em os irmãos Karamazov “Nada é imoral. Tudo é lega, até o crime”.

     No entanto, é exatamente sobre essa premissa que Sartre vai sustentar a tese de que existencialismo é humanismo e que esse não está desassociado de valores, pelo contrario, a liberdade proposta pela sua corrente de pensamento corrobora a responsabilidade humana ante a existência.

   Destarte, que toda ética humana é entregue a responsabilidade subjetiva do eu, não sendo mais cabível ou justificável qualquer sucesso ou insucesso na vida, isso significa que sem Deus para nortear as ideias de certo e errado, o homem está só, livre e sem desculpas nem para si nem para os outros.



By Paulo Mazarem; 

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