UM DISCURSO SOBRE CIÊNCIAS





Publicado pela primeira vez em Portugal no ano de 1987 “Um Discurso sobre as Ciências”, segundo o próprio Boaventura de Souza Santos, a obra o surpreendeu uma vez que o êxito acadêmico dessa obra representou uma projeção para análise de re (conhecimentos), emergentes, sendo segundo ele uma referência recomendada anos a fio nos cursos de filosofia, ensino secundário e ensino superior.

Minha proposta aqui é apresentar para o público em geral um resumo da presente obra, que segundo Boaventura "Um Discurso sobre as Ciências", é na verdade uma versão ampliada da Oração de Sapiência proferida na abertura solene das aulas da Universidade de Coimbra, no ano letivo de 1985/1986, onde o autor defende uma posição epistemológica antipositivista a luz da física e da matemática. Pondo em causa a teoria representacional da verdade e a primazia das explicações causais, defendendo que todo o conhecimento científico é socialmente construído, que o seu rigor tem limites inultrapassáveis e que a sua objetividade não implica a sua neutralidade.  Boaventura descreve ainda a crise do paradigma dominante e identifica os principais traços daquilo que ele designa como paradigma emergente, onde este atribui às ciências sociais antipositivista uma nova centralidade, defendendo a tese de que a ciência, em geral, depois de ter rompido com o senso comum, deve transformar-se num novo e mais esclarecido senso comum.

No entanto como já era de se esperar, em meados dos anos noventa, eclodiu, primeiro na Inglaterra e depois nos Estados Unidos da América, um debate acirrado entre positivistas e anti-positivistas, entre realistas e construtivistas, onde se destaca o positivista, (como o físico matemático) Alan Sokal que reagira em termos de uma guerra epistemológica contra o discurso cientifico Boaventuriano, essa guerra cientifica ficou conhecida pelo nome de Sokal affair. Nesse artigo publicado na revista Social Text, o objetivo de Alan Sokar era denunciar as supostas debilidades das posições anti-positivistas ditas pós- modernas. Em 1997 Sokal publica, conjuntamente com Jean Bricmont, o livro Impostures Intellectuelles (Paris: Odile Jacob; Lisboa: Gradiva; Rio de Janeiro: Record), em que é desenvolvida a crítica aos filósofos e cientistas sociais “pós-modernos” franceses, genericamente acusados de uso incorreto de teorias e conceitos das ciências físico-naturais. Em 2002, foi publicado em Portugal um livro intitulado O discurso pós-moderno contra a ciência: obscurantismo e irresponsabilidade, de autoria de António Manual Baptista. O alvo era Um discurso sobre Ciências de Boaventura, que seguia a mesma proposta de Sokal.
Foi então que Boaventura em resposta a estas provocações epistemológicas escreve: Conhecimento prudente para uma vida decente: Um discurso sobre as ciências revisitado.

Na obra Um discurso sobre ciência Boaventura de Souza Santos trafega pela via epistemológica apontando para o paradigma dominante (p. 20) transcorrendo sobre sua crise (p. 40) e ressaltando o paradigma emergente (p. 59). Ele ainda objetiva que todo conhecimento científico-natural é científico-social, (p. 61) todo conhecimento é local e total (p. 73) ,  todo conhecimento é autoconhecimento (p. 80) e todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum (p. 80).

Enfim, Um discurso sobre as ciências é uma obra indispensável para aqueles que estejam dispostos a percorrer esse itinerário cientifico e entender essa profunda crítica à epistemologia positivista, tanto nas ciências físico-naturais, como nas ciências sociais, fundamentando-a à luz dos debates na física e na matemática como já observado. A proposta é ver nessa epistemologia um sinal da crise final do paradigma científico dominante e identificar traços principais de um paradigma emergente que confere às ciências sociais uma nova centralidade na busca de um novo senso comum. 

By: Paulo Mazarem
Florianópolis
22 Abr. 16.

REFERÊNCIA:



SANTOS, Boaventura de Souza: Um discurso sobre as ciências. 7. Ed. – São Paulo: Cortez, 2010.

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