A PUSSY E A MUSICA FUNKE-SE, COMO VETOR DE LIBERDADE E LIBERTINAGEM, EMANCIPAÇÃO FEMININA OU DOMINAÇÃO MASCULINA?






Quando Richard Parker (Antropólogo e Sociólogo) chegou no Brasil pela primeira vez em 1983, para realizar um estudo sobre cultura e poder, tendo o carnaval como pano de fundo, não demorou, para perceber a sensualidade explicitamente visível nesta festa. Ele percebeu a força da cultura brasileira impregnada por seus mitos de origem que foram em certo sentido escritos e inscritos de forma marcante pelos primeiros escritores - como Pero Vaz de Caminha e Américo Vespúcio - que já citavam a sensualidade "inocente" e "natural" dos nativos e o caráter edênico da terra. 

Na casa grande e senzala de Gilberto Freire, por exemplo, já estava evidente a conotação empregada para os homens em relação as mulheres, deste modo a Casa grande era na verdade fortaleza para os membros masculinos da família e em certo sentido prisão para os membros femininos, havia claramente uma polarização entre os sexos. 

Para se ter uma ideia, até os 5 ou 6 anos, todas as crianças brincavam e eram educadas juntas. Porém, a partir de então, os grupos se separavam e o filho homem era estimulado à iniciação sexual precoce, com as escravas na senzala. Já as meninas não tinham tais experiências, por que na verdade lhes eram ocultadas todas às informações com/de natureza sexual. Muitas delas só viriam saber o que eram menstruação quando ocorria a menarca.

De acordo com Parker os conceitos que foram criados para designar a genitália tanto masculina quanto feminina, já davam uma amostra do sentido cultural e androcêntrico, isto é, patriarcal que se inscreverá na cultura que agora era de dominação masculina. 

Assim, para se referir ao "falo" como instrumento de agressão simbólica, usava-se o termo 'arma' (por exemplo, pau, pica, cacete, mastro, vara) e a vulva em contrapartida era vista como um animalzinho indefeso e passivo (por exemplo, perereca, aranha e baratinha). Embora esses termos soem estranho para aqueles cuja moral é santificada, o fato é que tais conceitos carrega/vam conotações políticas que nos permitem analisar o por que destas festas, chamadas de pagãs, bem como a cultura que as precederam serem demonizadas pela cultura hegemônica e ideal. 

Mas, por que essa introdução se o tema propõe outras possibilidades?  

Embora, pareça desnecessária tais informações, elas são elementares para entendermos a construção e o caminho que se percorreu para se chegar no estado atual em que nos encontramos. Os homens sempre tiveram privilégios que as mulheres desconheciam, e talvez, por esse motivo hodiernamente muitas delas usam a música e a dança como recurso emancipatório para se libertar das grades e algemas impostas pela figura masculina através da cultura ou tradições. Mas, até onde isso é liberdade, uma vez que os homens recorrem ao mesmo nicho para tentar ou de forma simbólica perpetuar o seu poder. 

Sabemos que a questão é bastante sensível e muito tênue, até por que o espaço que separa a liberdade da libertinagem é mínimo e fronteiriço. 

No entanto, cabe-nos perguntar quem são os protagonistas, porta vozes dessa dita emancipação feminina ou feminista, e mais de onde se fala, qual é o público alvo?

Vamos começar com o MC G15... 

que recentemente foi lançou seu mais novo hit que traz uma música com o seguinte titulo: "Meu pau te ama".       O cantor de funk canta o seguinte, repare a letra: "Que vontade de foder garota, eu gosto você, fazer o quê, meu pau te ama, meu pau te ama, meu  pau te ama [...]. Para se ter uma ideia, a música em apenas quinze dias viraliza na internet e bate 85 milhões de acesso em quinze dias apenas. 

Explicando: 

A versão “ligh” da música, sem palavrões, com o refrão “O Pai te Ama”, já bateu 65 milhões de visualizações em um único vídeo no Youtube. Já a versão “proibidona”, com o refrão “Meu Pau Te Ama”, já bateu 20 milhões de acessos. Somando apenas esses dois vídeos, são 85 milhões de visualizações em 15 dias.

Hermenêutica:

É necessário reflexão, isto se trata de liberdade de expressão ou violência simbólica contra a figura feminina?  
Será que essas 85 milhões de visualizações foram feitas apenas por homens? Presumisse que não!
Eis a questão, Larissa de Macedo Machado (Anitta) aparece publica em seu canal um vídeo onde ela aparece dançando. O numero de visualizações já passam meio milhão até o presente momento. Apologia a exploração do corpo feminino ou feminismo auto-suficiente de emancipação feminina do tipo quem manda no meu corpo "sou eu" e eu faço o que quero! E aí, liberdade ou libertinagem. Que tal os dois? 

Houve uma época em que a sociedade era falocêntrica, no entanto percebe-se um certo vaginocentrismo e bundalocentrismo em decurso por meio da cultura do funk e do carnaval. Sobre o carnaval, todos sabem, mas e o funk o que ele é afinal de contas? Trata-se de um manifestação cultural iniciada na década de 60 que sofreu modificações até o presente momento ou ele em suma é sinal de decadência moral de uma sociedade permissiva e libertina? 

Existem inúmeras monografias, dissertações e teses, bem como artigos científicos sendo publicados com este tema, aqui farei menção do projeto de mestrado realizado por Mariana Gomes Caetano com o título: "My Pussy é o poder", A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Liberdade, feminismo e indústria cultural. E também da tese apresentada por Adriana Carvalho Lopes com o titulo: "Funke-se quem quiser no batidão negro da cidade carioca".
Começemos com a Drª Adriana Carvalho Lopes segundo ela:  O "funk" [...] é hoje uma das maiores manifestações culturais de massa do Brasil e está diretamente relacionado aos estilos de vida e experiências da juventude de periferias e favelas. Trata-se de uma performance híbrida resultante de um intenso processo de apropriação, transformação, nacionalização e comodificação de ritmos da diáspora africana. 

Destaca-se o dito: "ritmos da diáspora africana" quer dizer do povo que também dera origem ao carnaval e ao que parece proscrevem o funk. O fato é que ambos tanto o carnaval como o funk exibem sensualidade. 

Vejamos:



Conforme visto, identifica-se não só semelhança do carnaval com o funk ou vice-versa em sua cinesiologia, mas também as performances do "corpo feminino" como vetor de erotização, de desejo masculino e de objeto-fetiche. 

Talvez por esse motivo músicas como: meu "pau te ama" façam tanto sucesso não pelo fato de sua mensagem ser seminal, e sim por movimentar uma indústria gulosa por lucro que se alimenta das mulheres para subsistir. E aí, neste caso, é a sensualidade feminina que torna-se produto de consumo masculino oriundo de um cultura machista que usa o funk com um duplo sentido: emancipação e dominação da figura feminina ao mesmo tempo. Com isto quero dizer que o mesmo funk que é utilizado para pregar liberdade as mulheres, é o mesmo usado pelos homens para promover libertinagem, obscenidade e erotismo

Penso que está óbvio que os atos de discurso visual que definem os significados de raça, gênero e território, não só constituí a identidade do funk e do carnaval como também caracterizam a prática musical e os seus sujeitos. 

Daí, retomo a provocação propositada, Mulheres emancipadas ou mulheres objeto? Em suma deve-se dizer que nem todo funk é ostentação e nem todo funk é da mulher, por exemplo, a quem diga que o funk da Anitta é de classe e o da Valesca Popozuda vulgar. Assim cria-se zonas de separação entre o funk de favela e a glamorização do funk consumido pelas elites, em suma a uma polarização.

Assim se de um lado encontramos, Mc G15 com o "Meu Pau te ama" representando a dominação dos homens do outro encontramos Valesca Popozuda com "My Pussy é o poder" (Minha buceta é o poder) trazendo consigo uma certa carga de feminismo. E é nessa encruzilhada que se encontram os sexos. Mas, afinal, qual é a posição da mulher nesse jogo? Quem são as funkeiras e quais são as iconologias construídas a respeito delas. 

Em sua maioria as funkeiras se consideram cachorras, frutas, bandidas, poderosas, popozudas e etc...                   No entanto, para outras mulheres, chamadas pelas funkeiras de recalcadas, elas são vadias, escrotas, putas, etc...


VEJAMOS:



HISTÓRIA 

Ora, todos nós sabemos que as mulheres realizaram uma revolução social e política no século XX, conquistaram direitos e reconhecimentos no espaço público e privado. Hoje apresentam índices cada vez mais altos de escolaridade, participação no mercado de trabalho e um grande poder de decisão de consumo. 

No entanto, tal conquista integra os esforços de justiça social, mas falta muito a conquistar, principalmente no tocante a forma como o corpo feminino se torna imagem visual para nutrir e apetecer desejos lascivos de um público masculino que coisifica a mulher (que pensa estar livre) ao invés de reconhecê-la em sua dignidade e identidade ontológica. 

Seria o funk ou o carnaval o libertador da figura feminina? 

Essa provocação é essencial para (re)assumir-mos que as linhas divisórias que separam a liberdade da libertinagem, quase sempre obedecem lógicas de gestão humana e de capital econômico.

Conforme diz Morin:

"o dinheiro sempre insaciável se dirige ao Eros, sempre subnutrido, para estimular o desejo, o prazer,  e o gozo, chamados e entregues pelos produtos lançados no mercado. O erotismo entra triunfalmente no circuito econômico dotado de poderes e envolve fortemente a civilização ocidental" (1997, p. 120)


Logo, ao se analisar os gostos, e as preferências, o que se percebe na verdade é que essa cultura do funk e do carnaval propriamente dita, estão na verdade a serviço de uma racionalidade econômica que se servem da cultura instrumentalizando-a para fins exclusivamente mercadológicos. 

Paulo Mazarem
Teólogo e Cientista da Religião
São José
11 Jan. 17



REFERÊNCIAS:


Anitta dançando Meu Pau Te ama (Deu onda) do Mc G15 de biquíni. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=JKr21TMuCNw> Acesso em: 11 Jan. 17

CAETANO, MARIA GOMES. My Pussy é o poder. A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Liberdade, feminismo e indústria cultural. Disponível em < https://marivedder.files.wordpress.com/2013/04/marianagomescaetano_projeto_de_mestrado_ppcult_2013.pdf > Acesso em: 11 Jan. 17

LOPES, Adriana Carvalho. Funke-se quem quiser no batidão negro da cidade carioca. Disponível em: http://hugoribeiro.com.br/biblioteca-digital/Lopes-Dissertacao-Funk.pdf > Acesso em: 11 Jan. 17

Música do "Meu Pau Te Ama" viraliza na internet e bate 85 milhões de acessos em 15 dias. Disponível em: <https://boainformacao.com.br/2017/01/musica-do-meu-pau-te-ama-viraliza-na-internet-e-bate-85-milhoes-de-acessos-em-15-dias/ > Acesso em: 11 Jan. 17 

MC G15 - Meu pau te ama + Letra (Musica nova Lançamento 2017). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WDkRUnxJA0I > Acesso em: 11 Jan. 17

Miami Carnival 2016 LIT AF #miamicarnival2016#jouvert2016. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=fOTkx1mDTX8 > Acesso em: 11 Jan. 17 

MORIN, Edgar. Cultura de massa no século XX. Rio de Janeiro: Forense Vol. 1 - Neurose, 1997. p. 120

Mulheres do Funk no programa "A Liga" (Completo HD) 27.08.2013. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=3vMef63Oh-o > Acesso em: 11 Jan. 17

RICHARD PARKER. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Richard_Parker> Acesso em: 11Jan. 17.

SCHAUN, Angela;  SCHWARTZ, Rosana. O corpo feminino na publicidade: aspectos históricos e atuais. Disponível em: 




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