Quando o saber mata: razão, religião e a ilusão do progresso moral

Paulo Mazarem 

 É comum ouvirmos que o conhecimento liberta o homem da ignorância e que certos saberes seriam capazes não apenas de instruir, mas de moralizar a humanidade, aperfeiçoando-a nas esferas religiosa, cívica, ética e até ontológica. Contudo, essa confiança quase redentora no saber revela-se profundamente frágil quando confrontada com as grandes tragédias da história. 

     O Holocausto para mim é uma das experiências humanas mais tétricas e que serve como arquétipo para que possamos percepcionar que o conhecimento humano não é sinônimo de bem-aventurança ou de bem-estar comum. Aliás, as inquisições, cruzadas, os colonialismos e o próprio Shoah , comprovam a tese de que o suposto darwinismo social evolutivo da humanidade, sempre acaba por desvelar a selvageria mais perversa que habita a humanidade caída, governada pelo pecado, ambição descomedida e fática barbárie que a meu ver, está longe da civilidade tão aspirada pelo novo homem que em Cristo, invoca uma humanidade restaurada e plenificada pelas virtudes cardeais que deveriam nortear a vida humana como um todo. 

    A história demonstra que o conhecimento humano nunca foi sinônimo de virtude moral. Pelo contrário, quando desacoplado da consciência, da alteridade e das virtudes, ele se converte em instrumento de dominação, seja no Holocausto, nas Inquisições, nas Cruzadas ou nos Colonialismos. De verdade, o mito do progresso moral pelo saber ignora a condição caída da humanidade, na qual razão e técnica frequentemente servem à ambição, ao pecado e à barbárie organizada. Somente uma antropologia realista, iluminada pela ética das virtudes e pela redenção em Cristo, pode resistir à ilusão de que civilização equivale a humanidade. O Holocausto, por exemplo, não desmente o progresso técnico; desmente o mito moral do progresso. Auschwitz não foi uma regressão à barbárie primitiva, mas produto de uma civilização altamente racionalizada. Isso para dizer que mais ciência não significa mais ética; mais técnica não significa mais humanidade e mais razão não significa menos violência. 

    Hanna Arendt , desmonta definitivamente a ideia de que o mal nasce da ignorância. No julgamento de Eichmann, o que ela encontrou não foi um monstro irracional, mas: um burocrata eficiente, cognitivamente funcional e moralmente vazio. 


    Não obstante, Michel de Montaigne escreveu em seus Ensaios em um contexto de guerras religiosas, massacres e perseguições, exatamente quando a Europa se julgava mais culta, mais cristã e mais racional. Seus diagnósticos foram devastadores: “Nunca cometemos tanto mal quando o fizemos com boa consciência, acreditando que estamos moralmente justificados em nome de uma verdade que julgamos virtuosa e correta.” Um homem é capaz de matar em nome de Deus com mais tranquilidade do que por interesse próprio.” Logo, a barbárie culta é mais perigosa que a barbárie bruta e a barbárie religiosa talvez sejam a mais demoníaca e anticristã de todas. 


    O Senhor Jesus foi perseguido por religiosos virtuosos, homens que ensinavam o sagrado e que se apresentavam como mediadores entre Deus e o povo. Eram homens que estudavam as Escrituras, zelavam pela tradição e ocupavam lugares de autoridade espiritual. E talvez a curiosidade mais assustadora, seja aquela de que os adversários de Jesus, não se vissem como sendo maus, nem se percebessem como perversos e muito menos agindo contra Deus (na própria consciência). Ao contrário: eles acreditavam estar defendendo Deus, a Lei e o povo. 

    Em resumo, a perseguição a Jesus nasce da “boa consciência religiosa” e não da ignorância espiritual, da ausência de fé ou da falta de zelo, mas da certeza moral absoluta que transforma a religião em sistema de poder, a virtude em critério de exclusão e Deus em justificativa para eliminar o outro. Nesse mesmo sentido, a Inquisição, diga-se de passagem, não foi ignorância medieval. Ela foi altamente teológica, juridicamente estruturada e espiritualmente justificada. 

    Ou seja, o herege não era morto por ódio, era morto para “salvar sua alma” e “proteger o corpo social” (a saber a Igreja). E tudo isso era feito: após processo, com testemunhas e com linguagem pastoral, seguindo a tônica de uma barbárie que se justificava em nome de Deus e do seu Cristo, uma barbárie que não grita, simplesmente reza! 


    O genocídio nosso de cada dia Retomando novamente a questão do genocídio perpetrado contra os judeus pela Alemanha nazista. É preciso aqui, destacar que o genocídio não começou nos campos de concentração, mas na linguagem (antes do sangue), pois antes de se matar corpos, matou-se nomes, sentidos, reputações e dignidades. Começou quando o outro deixou de ser alguém para se tornar “ninguém” ou “uma coisa”. 


    O genocídio começa na normalização do inaceitável. Quando pequenas exceções viram precedentes, precedentes viram rotina e a rotina vira sistema. Nesse sentido, o mal não chega como ruptura, chega como adaptação progressiva. É por isso que pessoas decentes participam de sistemas indecentes sem perceber quando cruzaram o limiar. 

    O genocídio começa na burocratização do mal, pois antes das câmaras de gás, vieram: formulários, registros, classificações e relatórios. Genocídio começa quando pessoas se tornam números e quando o sofrimento nada mais é do que um dado, onde a morte vira procedimento. 

    O genocídio começa na indiferença com o outro, quando não se estabelece mais diálogo, quando não se reconhece a humanidade fora de si. Nasce quando se existe por oposição, uma vez que o genocídio não exige ódio explícito, exige indiferença moral à existência do outro. Nesse aspecto, o primeiro passo não é matar, é não se importar mais com o outro. 

    O genocídio começa na ilusão de superioridade moral. Nasce quando em relação aos outros ou a “eles”, portanto aqueles que não são iguais a nós. Nós então entoamos, somos mais lúcidos, Nós! Somos “mais puros”, “mais conscientes” e “mais alinhados à verdade”. Sempre que um grupo se define como eticamente superior por natureza ou por conhecimento, ele já deu o primeiro passo rumo à desumanização do outro. E por fim, o genocídio começa na substituição do “eu” pelo “nós”. 


    Primo Levi (1919–1987) formulou o conceito de “nosismo”. Ele foi um escritor e químico italiano, amplamente reconhecido como uma das vozes mais lúcidas e comoventes do testemunho sobre o Holocausto. Sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz, transformou sua experiência em uma obra literária e moral de alcance universal. Para ele o “nosismo” ocorre quando se perde a noção consciente e subjetiva em detrimento de um “nós” sem rosto, sem individualidade que transfere responsabilidades para um “nós” corporativo e impessoal. No âmbito acadêmico, o “nosismo” ocorre quando a consciência individual e o juízo moral são suspensos em favor de um “nós” funcional, no qual a responsabilidade ética é diluída, fragmentada e transferida para o sistema. 

    Nesse processo, o indivíduo deixa de agir como sujeito moral e passa a operar como função, tornando a violência não apenas possível, mas administrável. E isso inclui vários tipos de violência: econômica, simbólica, psicológica, física etc. O genocídio começa quando: ninguém diz “eu fiz”, e sim quando todos dizem “nós decidimos” e, no fim, ninguém é responsável por absolutamente nada. Esse é o ponto mais inquietante de Levi: o mal extremo nasce quando o “eu” abdica da própria consciência em favor do pertencimento. 

    O genocídio começa exatamente onde as pessoas param de pensar e continuam funcionando e se instala quando: obedecer é visto como virtude absoluta, pensar é visto como ameaça à ordem e questionar é confundido com traição. Esse ponto é devastador para qualquer sistema político, religioso ou institucional, que valorize lealdade acima da verdade. Porque no fundo no fundo, o genocídio precisa de bons funcionários, não apenas de fanáticos. 


Tragédias e a sua gênese 


Uma das grandes ilusões humanas é imaginar que as tragédias sejam acontecimentos fortuitos, repentinos ou meramente contingenciais. A história, contudo, revela um padrão recorrente: as grandes rupturas raramente começam no seu ato final. 

    O genocídio, por exemplo, não tem início nos campos de concentração, mas em processos prévios e silenciosos, na linguagem que desumaniza, na indiferença que normaliza a exclusão, no preconceito que se torna aceitável e no silêncio cúmplice que antecede a violência explícita. Esse mesmo princípio pode ser observado em diversas instâncias da experiência humana e bíblica. Quando olhamos para a história do povo de Israel, torna-se evidente que o cativeiro que um dia alcançou a nação sacerdotal não começou em terra estrangeira, mas no abandono progressivo da Torá, isto é, das instruções do Senhor. O exílio foi apenas a consequência histórica de uma ruptura espiritual, ética e cultual que já havia se instaurado no interior do povo muito antes da deportação. 

    O mesmo se aplica à prisão que hoje encarceram milhares de pessoas. Ela não começa nas algemas, mas no coração transgressor, no desejo desmedido, na ausência de freios éticos e na normalização de pequenas concessões morais que, aos poucos, se transformam em padrões de comportamento destrutivos. Essa lógica também se estende ao campo relacional. O divórcio, por exemplo, não começa no fórum, mas em uma série de fatores que o antecedem: no esvaziamento do diálogo, na perda da alteridade, no desprezo silencioso, na indiferença afetiva e na recusa da reparação. Antes da separação jurídica, ocorre uma separação afetiva. Esse mesmo padrão pode ser identificado na própria Reforma Protestante do século XVI. 

    Frequentemente interpretada apenas como um evento teológico ou como um gesto isolado de ruptura institucional, a Reforma não começou em 1517, nem na afixação das 95 teses, mas em um processo histórico mais amplo e profundo: na corrupção moral e administrativa da Igreja medieval, na instrumentalização da fé como mecanismo de poder, na mercantilização da salvação, no distanciamento pastoral do povo e na progressiva substituição do Evangelho por estruturas de dominação espiritual. 

    A Reforma, portanto, não foi apenas um cisma doutrinário, mas o desfecho inevitável de uma crise acumulada, ignorada e silenciada por décadas. Suas consequências, contudo, ultrapassaram o campo teológico: desencadearam guerras religiosas, fragmentações eclesiais, perseguições mútuas, rearranjos políticos e a redefinição da relação entre fé, Estado e consciência individual. O que começou como uma denúncia espiritual transformou-se, rapidamente, em uma convulsão civilizacional, revelando mais uma vez que rupturas institucionais profundas são precedidas por falências éticas prolongadas. 

    Em última instância, toda tragédia, seja ela pessoal, religiosa, política ou civilizacional, começa antes. Ela se instala no invisível, no simbólico, no relacional e no moral. Começa quando algo essencial já morreu por dentro, embora ainda não tenha sido formalmente sepultado por fora. O evento final apenas revela, de modo dramático, uma falência que já estava em curso há muito tempo. Conclusão A reflexão desenvolvida ao longo deste texto converge para um diagnóstico incômodo, porém necessário: o problema central da humanidade não é a ausência de conhecimento, mas a dissociação entre saber, consciência e virtude. A história demonstra, de forma reiterada, que a razão, a técnica e até a religião, quando absolutizadas e desacopladas da alteridade e do juízo moral, não apenas falham em humanizar, mas se tornam instrumentos altamente eficientes de dominação, exclusão e morte. 

    O Holocausto, aqui assumido como arquétipo não representa uma exceção monstruosa ao curso da civilização, mas a sua possibilidade interna. Auschwitz não foi o colapso da razão, mas o seu uso funcional sem consciência; não foi a derrota da ordem, mas a sua radicalização burocrática; não foi a ausência de moralidade, mas a sua substituição por sistemas de obediência, eficiência e lealdade acrítica. 

    Nesse sentido, Hannah Arendt, Primo Levi e Michel de Montaigne, cada um a seu modo, revelam que o mal extremo floresce onde o pensamento cessa, onde o “eu responsável” se dissolve no “nós funcional” e onde a boa consciência substitui o discernimento ético. Essa lógica não se restringe aos grandes genocídios do século XX. Ela atravessa a história bíblica, a experiência eclesial, as relações humanas e as instituições contemporâneas. 

    O cativeiro de Israel, a perseguição a Jesus, a Inquisição, a Reforma Protestante, as prisões modernas, os divórcios e as rupturas comunitárias obedecem ao mesmo padrão estrutural: nenhuma tragédia começa no seu ato final. Todas são precedidas por falências invisíveis — na linguagem, na escuta, na justiça, na responsabilidade e no cuidado com o outro.

    O genocídio, como visto, começa quando o outro deixa de ser “tu” e passa a ser “isso”; quando nomes são substituídos por categorias; quando a indiferença se torna virtude; quando obedecer é mais valorizado do que pensar; quando ninguém mais diz “eu fiz”, mas todos se escondem atrás de um “nós decidimos”. 


    Nesse ponto, o mal já não precisa de ódio explícito basta a normalização do inaceitável e a abdicação da consciência pessoal. Diante disso, a esperança cristã não pode repousar no mito do progresso moral automático, nem na crença de que mais informação produzirá mais humanidade. Somente uma antropologia realista, consciente da condição caída do ser humano e iluminada pela ética das virtudes e pela redenção em Cristo, pode oferecer resistência a essa lógica. 

    O “novo homem” não é aquele que sabe mais, mas aquele que pensa, discerne, responde e ama; não é o mais eficiente, mas o mais responsável; não é o mais alinhado a sistemas, mas o mais fiel à verdade. Em última análise, este texto é um chamado à vigilância. Vigilância sobre a linguagem que usamos, sobre os sistemas que servimos, sobre os silêncios que toleramos e sobre os “nós” aos quais nos submetemos. Porque toda vez que a consciência se cala em nome da ordem, da virtude ou da fé, a tragédia já começou, ainda que o mundo insista em chamá-la de normalidade. 

REFERÊNCIAS 

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