HIPER-REALIDADE




Esses dias ouvi alguém dizer que o pensamento do Sociólogo e pensador francês Jean Baudrillard não é muito conhecido no Brasil e pensei como pode um pensador de imensa magnitude ser desconhecido? 
 presumi que o que ocorre na verdade a respeitos de seus trabalhos é que eles não são "pops" diriamos assim ou talvez meio que ininteligíveis para se compreender.   Dizem que o "Matrix" inspirado em suas obras não apeteceram seu senso estético de filósofo francês e  (cá comigo) nem poderia uma vez que o real inexista tudo o que for produzido por meio de sua operatividade não passará de simulacro o que talvez seja o Matrix segundo o autor. Mas afinal, o que é a Hiper-realidade e qual suas características? 
Vamos começar pelas características, lembrando que de algumas que aqui estão descritas é possível se encontrar referenciais claras em uma obra, p. e, chamada "Ilusão Vital", e as características que se seguem são:

  • Uma bebida de um sabor que não existe (soda sabor cereja);
  • Pornografia ("mais sexo que o próprio sexo");
  • Uma árvore de Natal de plástico que parece melhor do que uma árvore de verdade poderia ser;
  • Uma revista com fotos de modelos "retocadas" por computador;
  • Um jardim impecável (a vertente hiper-real da natureza);
  • Quaisquer fatos históricos, do presente ou do passado, promovidos massivamente, como que ressuscitados;
  • A Guerra do Golfo, na extensão de como os norte-americanos a entendem: de fato, Baudrillard diz que ela nunca aconteceu;
  • Muitas cidades e lugares que contam com locais que não lhes são funcionais, vistos pela realidade de sua localização, como se fossem criados ex nihilo: Disney World, Las Vegas, Brasília, a novíssima Palm Island, no Dubai, uma ilha artificial em forma de palmeira, grande parte dos monumentos internacionais;
  • A TV e os filmes em geral, devido à criação do mundo de fantasia e a dependência que o telespectador estabelece com esses mundos fantásticos. 

Outro exemplo é o casino de Las vegas que fornece ao indivíduo a impressão de estar caminhando através de um mundo fantástico (não à toa Las Vegas ser conhecido pela alcunha de Capital do Excesso Sensorial), onde todo mundo joga sem parar. A decoração não é autêntica, tudo é uma cópia cuja aparência remonta a motivos oníricos, tudo é ¹sedução que enfeitiça os olhos e desencaminha a mente e induz seu contemplador a se sentir como que num sonho-irreal porém real, ou hiper-real. O que não é um sonho, evidentemente, é que o casino toma grande parte de seu dinheiro, dinheiro do qual se estará mais disposto a abrir mão quando sua consciência não entende realmente o que acontece à sua volta, o que não é difícil de acontecer quando se tem à volta um universo pululante de pirotecnias luminosas desnorteantes. 
Em outras palavras, embora intelectualmente seja capaz de compreender o que acontece em um casino, sua consciência acha que o dinheiro gasto na jogatina de um casino é parte de um mundo "não real", pois faz parte do espetáculo desse tipo de estabelecimento distanciar, tanto quanto possível, o que ocorre lá dentro da realidade "árida e insossa" do mundo prosaico. 
É de interesse dos decoradores enfatizar cada detalhe como um engodo, porém um engodo extremamente aconchegante, para tornar a experimentação do lugar como um embuste agradável, em toda a sua extensão. Se é iludido sob a impressão de ser um sultão das arábias, numa clara reminiscência, não tanto direta, da política do pão e circo. 
Talvez o que diferencie a hiper-realidade quando confrontada com o "mundo antigo" ou cultos religiosos é que ela nasce no ambiente do racionalismo, empirismo, estado laico,enfim num mundo onde acreditava-se que a ciência "descortinaria" um mundo guiado pelas ideologias. Agora, são os próprios resultados da ciência que dão possibilidade de criar e gerir um mundo hiper-real com suas modernas fantasmagorias. O cassino obtém sucesso em dirigir o dinheiro para um objeto sem um valor ou realidade inerente.
Muitos dos filósofos pós-modernos, incluindo Baudrillard, não falam sobre hiper-realidade em termos da ²dicotomia sujeito/objeto.
Definições da Hiper-Realidade

"A simulação de algo que nunca existiu realmente"- Jean Baudrillard

"O engano autêntico." - Umberto Eco


1- Traduzida habitualmente por "sedução", a palavra Verfüng tem o sentido literal de "desencaminhamento". O prefixo ver denota erro ou desvio neste caso (qual o nosso des), modificando o substantivo Führung ("condução", do verbo Führen, "conduzir"). É bem apropriada a versão tradicional, considerando o sentido do verbo seducere, em latim: "conduzir para o ladao, desviar".                                                                                                    
NIETZSCHE, F. Para Além do Bem e do Mal. Martin Claret, p. 29

2- O modo de pensar no Ocidente é caracterizado por propostas objetivamente dualistas, bem e mal, belo e feio,  claro e escuro, Deus e diabo, luz e trevas, etc...

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